quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A BELEZA DE LYGIA


Nesta foto, em 1952, Lygia ao lado de Maria Amélia (mãe de Chico Buarque) e Sérgio
Buarque de Holanda.
Postado por Nice

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ciranda de Pedra [3]


"... Levantou-se deslizando as mãos pelo vestido preto que lhe acentuava a linha do corpo. Prendeu no vértice do decote uma rosa de seda vermelha. "Qualquer prima-dona de subúrbio se lembraria de usar uma flor dessas..." Sorriu baixando o olhar para o porta-retrato. Laura parecia agora mais distante com sua ajuizada fisionomia de colegial. Com a ponta dos dedos Virgínia acariciou a moldura de couro esverdeado..."

(...)

"...A pior coisa que podia acontecer era exatamente mostrar-se cruel para com as pessoas. E as pessoas morrerem e não se ter tempo para fazer mais nada por elas. "Meu pobre pai, eu te feri tantas vezes, também me feriram outro tanto...."

terça-feira, 28 de outubro de 2008

4.º Prêmio BRAVO! Prime de Cultura

Foto: Juan Guerra/AE

Com apresentação do ator Lázaro Ramos, a revista BRAVO! realizou na noite de segunda-feira, 27, a entrega do 4.º Prêmio BRAVO! Prime de Cultura, na Sala São Paulo. O grande destaque na cerimônia foi o ator Wagner Moura, que levou o prêmio de Artista Prime do Ano, escolhido pela votação do público. Na edição do ano passado, o premiado nesta categoria foi o veterano Paulo Autran, morto em outubro de 2007. Moura concorria com a artista plástica Beatriz Milhazes, José Padilha, Laurentino Gomes, Ney Matogrosso e o maestro Roberto Minczuk.
José Padilha também saiu da festa com um troféu nas mãos. Seu filme Tropa de Elite, sucesso nas bilheterias, levou na categoria Melhor Filme Nacional. Já na categoria Melhor Espetáculo de Teatro, a vencedora foi Arieta Corrêa, que recebeu o prêmio por Não Sobre o Amor.

Outro momento importante da cerimônia foi a entrega do prêmio de Melhor Livro para Cristóvão Tezza, autor de O Filho Eterno. A entrega foi feita pela escritora Lygia Fagundes Telles, aplaudida de pé pela platéia enquanto subia ao palco.

Lígia Fagundes Telles entrega prêmio para Cristóvão Tezza. Foto: Tiago Queiroz/AE
O escritor Cristóvão Tezza recebeu o troféu de Melhor Livro ("O Filho Eterno") das mãos de Lígia Fagundes Telles. Foto: Tiago Queiroz/AE

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

'Capitu era uma santa; virou monstro. Hoje, não sei'


Eu estava na faculdade de Direito quando li pela primeira vez Dom Casmurro, uma edição que comprei em um sebo. Achei, então, que Capitu era uma santa, uma pobrezinha; e ele, Bentinho, um neurótico, um doido varrido, histérico. Conversei com as minhas colegas, éramos seis mulheres, sobre a leitura, e eu dizia: 'Não pode isso, esse homem é um louco, neurastênico, desesperado, casado com uma santa em que via a traição.' Enfim, não li mais o livro. A segunda leitura foi na maturidade. Estava casada com o Paulo Emílio Sales Gomes e preparávamos Capitu (roteiro filmado por Paulo César Saraceni). Reli o livro e disse ao Paulo: 'Mudei completamente de idéia, a mulher traiu ele sim, o filho não era dele.' E ele me perguntou: 'Você tem certeza? Cuco, você não pode ser juiz, temos que suspender o juízo, como o próprio Machado queria.' E eu: 'Mas eu não posso suspender, esse homem é um doido, coitada dessa mulher.' 'Cuco, não vista a toga de juiz. Vamos apresentar o roteiro como está no livro. Você está ficando com a cara do Bentinho!' 'E você então está me traindo' (risos).
E hoje: Capitu traiu Bentinho?
Eu já não sei mais (risos). Minha última versão é essa, não sei. Acho que enfim suspendi o juízo. No começo, ela era uma santa; na segunda, um monstro. Agora, na velhice, eu não sei. Só tem uma coisa que eu ressalto. Estava conversando com minha neta outro dia. Bentinho fica sabendo que o filho, aquela criança linda, que tanto o amava, é filho de Escobar, que era uma beleza de homem. Vamos aceitar a opinião de Bentinho, o filho então não é dele. Mas ele fica sabendo que o filho morreu e escreve: 'Jantei bem e fui ao teatro.' Não gostei disso, achei duro demais. Mesmo que o filho não fosse dele, ele não podia 'jantar bem'. Eu disse ao Paulo Emílio: ele não podia ter ido comer bife e batatas logo depois de saber da morte do menino. É muita frieza. E o Paulo: 'Não é frieza. Ele via o Escobar no filho, não podia ter ficado triste.' Nós dois quase brigamos (risos). O Paulo entrava na escrita machadiana para preservar a dúvida, o oculto, o encoberto. Machado adorava isso, nada aparecia claramente. Dizia o Paulo: 'Se para o Bentinho o filho não era dele, podia até sair para dançar aquela noite.' E eu reclamava: 'Isso é horrível, Paulo, precisa entrar na sua cabeça que se ele desejava tanto o filho, amava tanto a Capitu, não podia ir ao teatro e jantar bem.'
Você tem uma cena preferida?
Para mim, a cena principal é o momento em que Escobar está morto no caixão, a viúva se aproxima e olha firmemente para o morto; Capitu faz o mesmo - e as duas têm o mesmo olhar. Bentinho estremece inteiro. Olha para as duas e reconhece nelas a mesma expressão. Essa é a cena de um artista maduro. Disse em uma entrevista certa vez que achava Dom Casmurro mais importante que Madame Bovary. Nele há a dúvida, enquanto a Bovary tem escrito na testa que é adúltera. O Wilson Martins me passou um pito em um artigo (risos).
Mas eu continuo achando. Mas pode ser que Bentinho estivesse enganado, doido, neurótico, olhou para as duas e viu a traição da mulher que perdia o amante onde poderia ter visto uma amiga sentindo a perda de uma pessoa querida.Lembro de um episódio interessante. Não me recordo em que ano foi, mas eu já estava casada com o Paulo. Fizeram uma enquete perguntando a homens e mulheres se Capitu tinha ou não traído Bentinho. Você sabe que as mulheres acharam que ela era amante e os homens ficaram na dúvida? Contei para o Paulo, que disse: 'Mulher não gosta mesmo de mulher, quem gosta de mulher é homem.'
Quantas vezes você leu o livro?
Ah, várias. E agora que você me provocou com esse depoimento fui olhar de novo. Peguei também o roteiro de Capitu e um livro importantíssimo, Antologia Filosófica de Machado de Assis, do Miguel Reale. O Machado conhecia os filósofos todos, Sócrates, Platão, Aristóteles, Hegel, Goethe, lia tudo. O Reale insiste na paixão de Machado pelo Eclesiastes. Você me obrigou a relembrar. Foi bom você me provocar, entrei de novo na aura machadiana. De repente escrevo um livro sobre ele.

Publicada no O Estado de São Paulo em 27/02/2008

postado por Nice

Clarice Lispector entrevista Lygia

Você sabe o que uma famosa escritora disse para a outra? Se não sabe, leia o que Clarice Lispector perguntou e Lygia Fagundes Telles respondeu. Mas o final dessa conversa poderá ser na Academia.Eu pretendia ir a São Paulo para entrevistar Lygia Fagundes Telles, pois valia a pena a viagem. Mas acontece que ela veio ao Rio para lançar seu novo livro, Seminário dos ratos. Entre parênteses, já comecei a ler e me parece de ótima qualidade. O fato dela vir ao Rio, o que me facilitaria as coisas, combina com Lígia: ela nunca dificulta nada. Conheço a Lygia desde o começo do sempre. Pois não me lembro de ter sido apresentada a ela. Nós nos adoramos. As nossas conversas são francas e as mais variadas. Ora se fala em livros, ora se fala sobre maquilagem e moda, não temos preconceitos. Às vezes se fala em homens.Lygia é um best-seller no melhor sentido da palavra. Seus livros simplesmente são comprados por todo o mundo. O jeito dela escrever é genuíno pois se parece com o seu modo de agir na vida. O estilo e Lygia são muito sensíveis, muito captadores do que está no ar, muito femininos e cheios de delicadeza. Antes de começar a entrevista, quero lembrar que na língua portuguesa, ao contrário de muitas outras línguas, usam-se poetas e poetisas,autor e autora. Poetisa, por exemplo, ridiculariza a mulher-poeta. Com Lygia, há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas do jeitinho como escrevem parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro. Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores. Sabe-se também que recebeu na França (com um conto seu, num concurso a que concorreram muitos escritores da Europa) um prêmio. De modo que falemos dela como ótimo autor. Lygia ainda por cima é bonita.Comecemos pois:
– Como nasce um conto? Um romance? Qual é a raiz de um texto seu?

– São perguntas que ouço com freqüência. Procuro então simplificar essa matéria que nada tem de simples. Lembro que algumas idéias podem nascer de uma simples imagem. Ou de uma frase que se ouve por acaso. A idéia do enredo pode ainda se originar de um sonho. Tentativa vã de explicar o inexplicável, de esclarecer o que não pode ser esclarecido no ato da criação. A gente exagera, inventa uma transparência que não existe porque – no fundo sabemos disso perfeitamente – tudo é sombra. Mistério. O artista é um visionário. Um vidente. Tem passe livre no tempo que ele percorre de alto a baixo em seu trapézio voador que avança e recua no espaço: tanta luta, tanto empenho que não exclui a disciplina. A paciência. A vontade do escritor de se comunicar com o seu próximo, de seduzir esse público que olha e julga. Vontade de ser amado. De permanecer. Nesse jogo ele acaba por arriscar tudo. Vale o risco? Vale se a vocação for cumprida com amor, é preciso se apaixonar pelo ofício, ser feliz nesse ofício. Se em outros aspectos as coisas falham (tantas falham) que ao menos fique a alegria de criar.
– Para mim a arte é uma busca, você concorda?
– Sim, a arte é uma busca e a marca constante dessa busca é a insatisfação. Na hora em que o artista botar a coroa de louros na cabeça e disser, estou satisfeito, nessa hora mesmo ele morreu como artista. Ou já estava morto antes. É preciso pesquisar, se aventurar por novos caminhos, desconfiar da facilidade com que as palavras se oferecem. Aos jovens que desprezam o estilo, que não trabalham em cima do texto porque acham que logo no primeiro rascunho já está ótimo, tudo bem – a esses recomendo a lição maior que está inteira resumida nestes versos de Carlos Drummond de Andrade:
Chega mais perto e contempla as palavras.Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres:Trouxeste a chave?– Você, Clarice, que é dona de um dos mais belos estilos da nossa língua, você sabe perfeitamente que apoderar-se dessa chave não é assim simples. Nem fácil, há tantas chaves falsas. E essa é uma fechadura toda cheia de segredos. De ambigüidades.
– Fale-nos do Seminário dos ratos.
– Procurei uma renovação de linguagem em cada conto desse meu livro, quis dar um tratamento adequado a cada idéia: um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e em seguida esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática. O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível. O escritor – ai de nós – quer ser lembrado através do seu texto. E a memória do leitor é tão fraca. Leitor brasileiro, então, tem uma memória fragilíssima, tão inconstante. O padre Luís (um padre santo que fez a minha primeira comunhão, foi ele quem me apresentou a Deus) me contou que um dia conduziu uma procissão no Rio. A procissão saía de uma igreja do Posto Um, dava uma volta por Copacabana e retornava em seguida. Muita gente, todo mundo cantando, velas acesas. Mas à medida que a procissão ia avançando, os fiéis iam ficando pelas esquinas, tantos botequins, tantos cafés. E o mar? Quando finalmente voltou à igreja, ele olhou para trás e viu que restara uma meia dúzia de velhos. E os que carregavam os andores. “As pessoas são muito volúveis”, concluiu padre Luís. Em outros termos, o mesmo diria Garrincha quando um mês depois de ser carregado nos ombros por uma multidão delirante, com o mesmo fervor e no mesmo estádio foi fragorosamente vaiado. Tão volúveis...
– Isso não é pessimismo?
– Não sou pessimista, o pessimista é um mal-humorado. E graças a Deus conservo o meu humor, sei rir de mim mesma. E (mais discretamente) do meu próximo que se envaidece com essas coisas, do próximo que enche o peito de ar, abre o leque da cauda e vai por aí, duro de vaidade. De certeza, tantas medalhas, tantas pompas e glórias, eu ficarei ! Não fica nada. Ou melhor, pode ser que fique, mas o número dos que não deixaram nem a poeira é tão impressionante que seria inocência demais não desconfiar. Sou paulista, e como o mineiro, o paulista é meio desconfiado. Então, o certo é dizer com Millôr Fernandes: “quero ser amado em Ipanema, agora, agora”. Em Ipanema vou lançar esse Seminário dos ratos. O que já é alguma coisa...
– Como nasceu esse título?
– Houve em São Paulo um seminário contra roedores. Lá acontecem diariamente dezenas de seminários sobre tantos temas, esse era contra os ratos. “Daqui por diante eles estarão sob controle”, anunciou um dos organizadores, e o público caiu na gargalhada, porque nessa hora exata um rato atravessou o palco. Tantos projetos fabulosos, tantas promessas. Discursos e discursos com pequenos intervalos para os coquetéis. Palavras, palavras. E de repente pensei numa inversão de papéis, ou seja, nos ratos expulsando todos e se instalando soberanos no seminário. “Que século, meu Deus”, exclamariam repetindo o poeta. E continuariam a roer o edifício. Assim nasceu esse conto.
– Quais são os temas do livro?
– São quatorze textos que giram em torno de temas que me envolvem desde que comecei a escrever: a solidão, o amor e o desamor. O medo. A loucura. A morte – tudo isso que aí está em redor. E em nós. Quando fico deprimida vejo claramente essas três espécies em extinção: o índio, a árvore e o escritor. Mas reajo, não sei tra- balhar sem a esperança no coração. Sou de Áries, recebo a energia do sol. E de Deus, o que vem a dar no mesmo,tenho paixão por Deus.
– Há muita gente louca no Seminário dos ratos?
– Sim, há um razoável número de loucos nesse meu livro e também nos outros. Mas a loucura não anda mesmo por aí galopante? “Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco representaria uma outra forma de loucura”, disse Pascal.
- O que mais lhe perguntam?
– Eis o que me perguntam sempre: compensa escrever? Economicamente, não. Mas compensa – e tanto – por outro lado através do meu trabalho fiz verdadeiros amigos. E o estímulo do leitor? E daí? “As glórias que vêm tarde já vêm frias”, escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente.

Postado por Nice

sábado, 30 de agosto de 2008

Tertúlia Literária continuação...

Lygia em: Os indecifráveis olhos de ressaca (Machado de Assis)

Olhos de Ressaca: olhar que vai e vem...como o mar...a ressaca...o mar vai levando tudo...depois vem devolvendo o que levou...
... Capitu num primeiro momento para Lygia era uma santa, uma coitada, seria capaz de defendê-la no tribunal, numa segunda leitura Capitu era fingida, tinha traído... no fim deixa suspenso o juízo final, nada era certo numa obra tão bem elaborada como Dom Casmurro...
Antes de mais nada, Lygia Fagundes Telles soube ultrapassar o círculo de giz autobiográfico em que giram desespradamente tantos contistas modernos. Ela possui, pois, a primeira qualidade do ficcionista, a de saber colocar-se na pele dos outros. Essa é mais uma ambigüidade do conto que ela assume com a mesma autoridade de Machado de Assis. (Wilson Martins)


Noite inesquecível
Meninas queridas, que estiveram compartilhando esse momento lindo ao lado de Lygia.

-Marília, Carla, Cida e Nice-

E a comunidade de todos aqueles que já sentiram a dor e o êxtase das "palavras-faca" de Lygia Fagundes Telles...
Orkut com os 5.585 membros.



Tesouros de Lygia; autógrafos!!!

"Lygia Fagundes Telles é uma definidora de mistérios, captando enigmáticos instantes, como uma antena que escrevesse."
Natércia Freire (Portugal)














"Uma escritora que transcende o tempo e banaliza com sua imortalidade a efemeridade e os mistérios da vida. Temos entre nós um mito, uma esfinge, um enigma. Temos de abraçá-la como se a literatura tomasse forma, cor, sabor... Suas obras emanam imortalidade, sua sobriedade e fome de viver nos acalanta para sobrevivermos perante a dura verdade de "sermos feito de carne".

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Prêmio Jabuti

Lygia Fagundes Telles ganhou com "As Meninas"


Cumplicidade

"- O grande público não lê os meus livros. Tenho, sim, leitores que considero os meus parceiros, mais do que parceiros, meus cúmplices."

(Lygia e uma "cúmplice, a querida Carla)

Elzira


Ao jornalista Cassiano Elek Machado (Folha de S. Paulo, 17/4/2004) ela contou o tipo de impulso que, na infância, a levou à literatura. Um dia, conta Machado, a menina Lygia bordava num canto da casa em Sertãozinho (SP) quando sua mãe lhe contou a história de uma bisavó, Elzira. Poetisa, pianista, apaixonou-se por um médico recém-formado, de nome Paixão, que encontrara em uma novena. Negro, foi pedir a mão de Elzira. A família rejeitou. Desiludido, Paixão encontrou-se com Elzira em dia de tempestade antes de abandonar a cidade.


"Ela chegou em casa outra pessoa. Não escreveu mais versos, não tocou mais o cravo, comia e falava pouco. Todas as noites punha no peito uma toa­lha ensopada de água. Ficou tuberculosa. Seis meses depois da partida dele, morreu. Quiseram chamar o doutor Paixão. Mas não havia naquele tempo jornal nem internet. Ele nem soube da morte dela", contou Lygia a Machado.Na cidade castigada pela seca não havia flores nos jardins para a sepultura. É então que uma sineta toca. "Chega um moço lindo, com uma braçada de lírios recém-colhidos para cobrir o caixão de Elzira." Antes que o pai alcançasse o mensageiro para identificá-lo, ele se evapora. "Era um anjo", conclui Lygia, que desde então abraçou o mistério literário, que é outra forma de falar que tudo que é narrativo é parte do mistério do mundo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Loucura


"Outra vez, fui a um psiquiatra, porque me achei mais louca do que o natural, e aí percebi que ele não podia fazer nada por mim; paguei e fui embora. Nós temos essa loucura natural, essa própria loucura que nos é benéfica, porque nós somos, afinal, tocados pela asa do anjo. Eu sou uma espiritualista. Tenho paixão pela língua portuguesa, tenho paixão por Jesus. Sou apaixonada por Jesus. Um dia, começaram a falar mal de Jesus numa sala, eu me levantei furiosa - como se estivessem falando mal de minha santa mãe - e fui embora."

Áudio de trechos recitados por Lygia:

*Trecho de Apenas um saxofone
*Trecho de Invenção e Memória.
http://www.klickescritores.com.br/cd/lygia.htm

ANTES DO BAILE VERDE (1972)

(Capa da 2ª Edição)

"O conto que dá título ao livro foi um momento em que parti da realidade para realizar a ficção. A história nasceu de uma frase que ouvi numa festa. Aquele berreiro, música alta, eu meio perplexa e ouvi o diálogo: 'Mas ele tinha que morrer hoje? Que inconveniência!' A morte de um homem, que é tão grave, como poderia ser tratada daquele jeito?"

"O menino estremeceu. Sentiu coração bater descompassado, bater como só batera naquele dia na fazenda, quando teve de correr como louco, perseguido de perto por um touro. O susto ressecou-lhe a boca. O chocolate foi se transformando em um amassa viscosa e amarga. Engoliu-o com esforço, como se fosse uma bola de papel. Redondos e estáticos, os olhos cravaram-se na tela. Moviam-se as imagens sem sentido num sonho fragmentado. Os letreiros dançavam e se fundiam pesadamente, como chumbo derretido. Mas o menino continuava imóvel, olhando obstinadamente."

*
"Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
(...)
- Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso. "

*
"- Você acha, Lu?- Acha o quê?- Que ele está morrendo?- Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.- Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas... E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.- Radiante? - espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. - E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.- Mas quando fui lá ele estava dormindo tal calmo, Lu.- Aquilo não é sono. É outra coisa."
ilustração retirada do site : http://www.sinestesia.com.br/
*
"Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços.E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…"

*
"– E se não vê a sombra das minhas asas é porque elas foram cortadas.
(...)
Era o círculo eterno sem começo nem fim. Um dia, Gisela diria à mãe qual era o escolhido. Fernanda o convidaria para jantar conosco, exatamente como a mãe dela fizera comigo. O arzinho de falsa distraída em pleno funcionamento na inaparente teia das perguntas, “diz que prolonga a vida a gente amar o trabalho que faz. Você ama o seu?…” A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito: hábito de rir sem vontade, de chorar sem vontade… O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul fica azul, numa vermelha vermelho. Um dia se olha no espelho: de que cor eu sou? Tarde demais para sair pela porta afora."

*

"— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta
com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me
desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?
— Eu toco saxofone."

*
"Com um gesto casual, atirei meu paletó em cima da mesa, cobrindo o rascunho de um conto que começara naquela manhã. - Já é tempo de uvas? - perguntei colhendo um bago. Era enjoativo de tão doce mas se eu rompesse a polpa cerrada e densa, sentiria seu gosto verdadeiro. Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto."

CIRANDA DE PEDRA (2)

(1954)

"Eu ia andando por uma rua muito elegante daqui de São Paulo e vi uma casa sendo demolida. Eu me lembro que a casa tinha um jardim lindo e uma escada de mármore. A casa já estava sem a parede da frente, exposta. Fiquei muito comovida com aquela imagem e pensei comigo: aqui nesta casa gente amou, viveu, dançou e chorou. Aí, percebi uma fonte débil, com água ainda jorrando. Em volta dela, havia pequenos anões de jardim, que estavam de mãos dadas, em uma ciranda que fechava a fonte. Pensei em uma jovem querendo entrar nessa ciranda de pedra e não conseguindo. Foi assim que nasceu a Virgínia."

(...)
"Ciranda de Pedra tem muito a ver com a minha história. Eu tive uma juventude muito tempestuosa. Eu era uma estudante muito pobre, meu pai havia se separado de minha mãe, eu me sentia muito rejeitada. A personagem Virgínia nasceu desse sentimento da rejeição. Esse livro é de 1954, tinha uma lésbica nesse romance, uma coisa que ninguém falava naquela época. O preconceito era terrível. Era a minha vontade de quebrar com os preconceitos, de quebrar com a tradição, das coisas todas arrumadinhas, limpas, sem poeira."
(...)

"Um livro que me ensinou a liberdade de escrever. Não me detive em qualquer limite nas personagens, na temática. É um livro corajoso para a época, tem como protagonistas um impotente, uma lésbica, e todo tipo de relacionamento dificílimo. Não hesitei diante de nenhuma personagem. Foi considerado escandaloso."

domingo, 24 de agosto de 2008

Vídeo do conto A MEDALHA

AS MENINAS (1973)

"Quis dar meu depoimento sobre a ditadura militar. Cada uma das meninas era testemunha da situação a partir de um ponto de vista: a drogada, a guerrilheira e a burguesinha. Mas as personalidades iam se misturando. É o inesperado da natureza humana. Me deu muito trabalho."
(...)
"Parece que esse é meu romance mais importante, o Paulo Emílio gostava demais dele. Lá também há um contrabando da realidade para a ficção. O panfleto político que a personagem subversiva reproduz para uma freira existiu de verdade, foi o Paulo Emílio quem me mostrou. Ele disse: olha, põe esse panfleto, que eu acho importante. Eu achei perfeito. Eram os anos de chumbo. Como eu disse no texto que está em Conspiração de Nuvens, sorte que na época o censor deve ter achado o livro muito chato e não foi adiante. Se tivesse chegado na página do panfleto, o romance teria sido censurado."

"- Desde ontem ela não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.
- Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e et cetera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade. Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinho pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo. Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.
Vou até a garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha se debate contra a vidraça e de repente seu zunido fica mais importante do que nossa fala. Mas de onde veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não ficava atrás.- Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo. Me pergunto se você está em segurança.
- Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres romperam o vidro como aquele de que lhe falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito altar.
Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.
- Mas não estou na redoma, Lia. É neste ponto que você se engana como se enganou também quando disse que eu queria lhe apontar a porta. Deus sabe que meu desejo maior é protegê-la e guardá-las para sempre, como se isso fosse possível. Se não interfiro, se não me aproximo é porque não quero que pensem em vigilância, fiscalização. Vocês bateriam as asas mais depressa ainda.
Pronto, magoou-se. Essa minha mania de discurso, baiano com subversão pode dar noutra coisa?
- Não sei explicar, Madre Alix, mas o que queria dizer é que embora resguardada a senhora luta a seu modo, respeito sua luta. Respeito até a luta dos que querem nos destruir, respeito sim senhora, eles estão na deles. Como estamos na nossa, enfraquecidos, traídos, divididos, não calcula como estamos divididos. Mas vamos agüentando. Um que fique tem que correr como um cão danado pra passar o facho ao seguinte que recebe e sai correndo até o próximo que nem estava na corrida, entende. De mão em mão. É demorado mas não estamos mais com tanta pressa.
- Facho, Lia? Você fala em facho, mas o que vejo é um levar ao outro violência, morte. Um rastro de sangue é o que vocês vão deixando por onde passam. Temos um Condutor Supremo e do Seu esquema transcendente a violência foi riscada. A espiritualidade...
Olha aí, vitória da espiritualidade. Arranco uma lasca da unha que vem com um fiapo de pele. O sangue brota. Chupo o dedo. Uma bala dum-dum no peito doeria menos."
E Yasbeck foi quem mais teve ciúme de mim, até detetive punha me vigiando. Finge que não liga mas a pupila se dilata e transborda como tinta preta derramando no olho amarelo. Já falei nesse olho? É nele que vejo a emoção. O ciúme. Fica intratável. Recusa a manta, a almofada e vai para o jardim, o apartamento fica no meio de um jardim que mandei plantar especialmente, uma selva em miniatura. Fica lá o dia inteiro, amoitada na folhagem, posso morrer de chamar que nao vem, o focinho molhado de orvalho ou de lágrimas.

TIGRELA - MEUS CONTOS ESQUECIDOS

sábado, 23 de agosto de 2008

Lygia fala sobre sua vocação de escritora...


O CHAMADO

Nos tempos dourados aprendi duas palvras que acabaram tendo tanta importância no meu ofício, a palavra liberdade e a palavra justiça. Mas foi no terreno dos esportes que conheci realmente a disciplina, segredo do modesto e quilíbrio desta escritora neste indisciplinado país.

(...)

O chamado. Obedecer a esse chamdo é uma destinação e não condenação, porque nesta entra o amargor que transforma o escritor numa esponja de fel. Obedecer à vocação seria simplesmente exercer o ofício da paixão, era o que me ocorria quando diante da pequena mesa abria o estojo com as canetas, escolhia a pena preferida, molhava no tinteiro e começava a escrever minhas histórias. Mas tomando cuidado para não sujar os dedos, esfregar o mata-borrão melhorava, mas cuidado com a blusa!

Quando me perguntava o que eu queria ser respondia, Escritora. Mas não falava em vocação, tinha pudor em assumir o ofício porque poderia parecer arrogância com um toque até de soberba. Só mais tarde compreendi que na vocação não está incluída a glória, tantas vocações verdadeiras e o silêncio, ninguém leu, ninguém viu. Vocação seria então apenas isto, atender ao chamado sem se preocupar com o resultado, cumprir o aprendizado da paciência e do amor.

(...)

Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de uma imagem, algo que escutei ou apenas vi e retive na memória, essa incompreensível faculdade da memória e sem “Sem a qual eu não poderia pronunciar o meu próprio nome”, como escreveu Santo Agostinho. Contos ou romances que nasceram de algum sonho, enfim, a maior parte dos meus trabalhos deve ter origem lá nos emaranhados do incosciente – a zona vaga e imprecisa do mistério. Impossível determinara as fronteiras do criador, os limites do imaginário e do real. Minha obra tem um certo travo de amargor? Anoiteço às vezes como toda gente mas espero pela manhã com seu bíblico grão de acaso, de loucura. E de imprevisto.

Trechos do escrito "O chamado- Conspiração de Nuvens"



sexta-feira, 22 de agosto de 2008

"...é só uma constatação. Meu país é este. Aliás, tem uma frase do Renato Russo [cantor e compositor, 1960- 1996] da qual gosto muito: ele dizia que o povo brasileiro não é feliz. É alegre. Tudo é farra, carnaval, e os governantes infelizmente fecham os olhos para tantos problemas. No meu tempo de estudante, eu dizia que se o Brasil tivesse mais creches e escolas haveria menos hospitais e menos cadeias. A frase continua valendo, e agora completo: também haveria menos drogas e menos violência. Nesse contexto não é fácil viver como escritora. E veja que ainda procuro seduzir o leitor, dourar a pílula. Mas também não vou apelar, como muitos, fazendo auto-ajuda disfarçada de literatura!"

Autocrítica

Revista Marie Clarie: Foi seu pai [o advogado Durval Fagundes] quem ajudou a publicar o primeiro livro de contos, ''Porão e Sobrado'', quando você ainda cursava o curso ginasial...

Lygia Fagundes Telles: "Eu lia minhas histórias para ele, ouvia suas sugestões. Nós nos dávamos muito bem. Ele realmente me apoiava e me ajudou, pagando a edição desse livro. Infelizmente foi uma estréia prematura: poucos anos depois, o texto não resistiu à minha autocrítica. Nunca mais permiti a republicação desse e de outros textos daquela fase."

Discurso de Posse na ABL

No pequeno laboratório de química dos meus tempos ginasiais, aconteciam as mais extraordinárias experiências sob a inspiração do nosso professor. Lembro-me de que era um homem pálido e meio balofo, com a mesma cara secreta de um Buda de bronze que ficava na vitrine dos bibelôs da sala de visitas da minha mãe. Falava baixo esse professor. Enfática era a voz borbulhante dos tubos de ensaio com suas soluções que ferviam sob a chama da lamparina nas famosas aulas práticas. Os misteriosos tubos de ensaio com seus lentos vapores - as fumacinhas escapando das misturas de inesperadas colorações - e que podiam explodir de repente ao invés de darem uma vaga precipitação, ah! o suspense daquelas combinações. Só ele, o químico de avental branco, parecia não se impressionar com as intempestivas ocorrências ao longo da tosca mesa esfumaçada, com ares de uma oficina de bruxaria medieval. Costumava ele fazer no quadro-negro os seus cálculos e, em seguida, anunciava: “Vocês verão agora este líquido amarelo ficar azul”. E o líquido amarelo ficava vermelho. Ele não se perturbava, era um homem calmo. Recomeçava, sem pressa, a operação, enquanto deixava escapar alguns fiapos de monólogo, “acho que algo não deu certo, hem?...”. É, concordávamos, alguma coisa não funcionou, o que seria? E, sem muito interesse pela resposta, voltávamos a acompanhar, com atenta perplexidade, os movimentos do mestre de uma ciência tão austera. E tão esquiva. A malícia, essa escondíamos na expressão meio idiotizada que só conseguem ter os adolescentes. Certa manhã, ele chegou filosofante:
Vejam, meninas, na química há sempre uma larga margem de imprevistos, como na vida, que também desobedece regras e leis...Vocês vão se lembrar disso mais tarde.A esse grão de imprevisto - o principal - fui juntando os acessórios: o acaso que reside nos pequenos acontecimentos fortuitos. E a loucura, o terceiro grão que compõe essa estupenda fórmula, anarquizando uma ciência com a nitidez da matemática. Anarquizando a circunstância do homem e o próprio homem, esse mesmo homem que Pascal considerava tão “necessariamente louco, que não ser louco representaria uma outra forma de loucura”.
A loucura, o acaso e o imprevisto desencadeando reações dentro do mesmo caldeirão. A fogo brando, para evitar o pior.
Dom Pedro I chamava a atenção da ambiciosa Marquesa de Santos (Pedro Calmon a considerava ambiciosa) para a importância de “certas misteriosas combinações”. Que combinações seriam essas? Dom Pedro sabia, ele e certamente esse outro Pedro, o Calmon, que pesquisou e analisou “as vinte mil léguas submarinas” da vida do Rei Cavaleiro. Nessas combinações, que para mim começaram naquele antigo laboratório de química, residiria o luminoso mistério que é o sal da vida.
Creio que foi sob a inspiração dessas combinações instigantes que me veio a idéia de fazer vibrar a corda tensa, de extremos aparentemente antagônicos: numa ponta, Gregório de Mattos, o patrono desta Cadeira no 16. Na outra ponta, Pedro Calmon, o seu último ocupante. Nessa desafiante operação, eis que me surpreendi de repente com a mesma perplexidade daquelas manhãs no laboratório de química, diante das soluções que pareciam desacatar a previsão oficial. Que neste caso seria afastar o baiano tão ilustre que foi Pedro Calmon do antiilustre baiano que foi Gregório de Mattos.
Contudo, aqui estou não só unindo esses extremos mas com eles dando um nó forte e quente, porque são extremos feitos da mesma incomparável matéria dos seres raros. Entrelaçados nas suas raízes por uma paixão comum: a paixão da palavra. A palavra falada. A palavra escrita.
A dementada paixão da palavra que os levou a lutar com a mesma coragem. Com a mesma generosidade - duas virtudes comuns aos dois artistas. Embora, na opinião de Carlos Drummond de Andrade, essa fosse uma luta vã:
Lutar com palavrasé a luta mais vãentanto, lutamosmal rompe a manhã.
Confesso que não vejo o trovador delirante que foi Gregório de Mattos acordando com a manhã, pois era nas noites boêmias que ele apurava sua viola. Quem acordava com os passarinhos era Pedro Calmon, ansioso por iniciar a luta que se assemelha a uma luta de boxe, sim, o escritor atracado à palavra como um boxeur numa contenda que é busca e encontro. Dor e celebração. Com suor e sangue, a palavra verte sangue.
O satírico do século XVII, Gregório de Mattos Guerra, o Boca do Inferno, liberto e libertino, errando “despassarado” de viola a tiracolo por Lisboa, Coimbra, Bahia, Angola e Recife. E os vínculos coincidentes com o bem-comportado orador do século XX, Pedro Calmon Moniz de Bittencourt, historiador e jurista refinado e polido, irônico, mas não sarcástico, colérico às vezes (a cólera é necessária) como no período em que foi reitor e, de peito aberto, defendeu a estudantada contra a polícia. Perspectivo e lúcido como o outro, o falso demente Gregório de Mattos. Um descompondo e o outro compondo, mas testemunhando, cada qual à sua maneira e ao seu tempo, a sua gente e o seu país.
Curioso o destino desses dois baianos iluminados pela paixão da palavra falada. Na sua tormentosa viagem para Ítaca, Ulisses fez-se amarrar com cordas no mastro do navio para assim resistir ao canto sedutor das sereias. Os que ouviram Gregório de Mattos com seu estilo barroco e fescenino e os que ouviram Pedro Calmon, barroco, também, mas não licencioso – os que ouviram essas duas sereias das mesmas águas não precisaram se amarrar para resistirem ao impulso de seguir o líder da ralé e o líder da elite nas universidades e academias. Pedro Calmon tinha três tribunas prediletas: a desta Academia, a do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. A tribuna do poeta era a taverna, a rua. Ele, que não tinha um “gato pingado pra puxar pelo rabo”, gostava de gatos? O gato de Pedro Calmon chamava-se Reinaldo. Gregório de Mattos e o seu destino obscuro “naquela pobre Bahia fidalga, no ano do Senhor de 1684”. Pedro Calmon e o seu destino glorioso.
Mas, afinal, o que queriam esses dois sonhadores, a verdade? A verdade. Usando e abusando do poder da palavra (o terrível poder da palavra!), sondaram, analisaram e interpretaram essa verdade tão escorregadia na face dos reis e dos vagabundos. Dos poetas e dos santos. Qui est veritas?, foi perguntado ao Filho de Deus. Ele não respondeu. E lembro aqui a paixão de ambos por esse mesmo Deus - outro traço comum na natureza mais profunda das duas ovelhas, a branca e a preta, esta a mais carente. A se oferecer nos instantes de lirismo para pousar a cabeça no seio da mulher amada. Ou no Coração do Senhor:
Nesse lance, por ser o derradeiro,Pois vejo a minha vida anoitecer;É, meu Jesus,a hora de se verA brandura de um Pai, mesmo Cordeiro.A beleza deve ser repetida: “Nesse lance, por o derradeiro, / Pois vejo a minha vida anoitecer;”.
Pedro Calmon clareou essa noite quando escreveu sobre A estranha vida de Gregório de Mattos, tantos espantos! Sem dúvida, reconheceu que uma centelha genial lhe abraçou a incrível facilidade do verso.
Não se negue mais, aqui e em Portugal, que é dele o primadodo abrasileiramento da língua portuguesa.Não se negue também que foi Gregório de Mattos, com sua poesia coloquial, o criador da modinha, a famosa modinha brasileira, que ele inventou e divulgou nas suas serenatas em Coimbra. E quando para cá voltou com seu canudo de doutor e sua viola.
Influências de Gôngora e Quevedo? Sim, mas o bardo baiano não aceitava ordens ainda que viessem metamorfoseadas em influências. Foi tentado, chegou a pensar que podia vender a alma ao Diabo, quando aceitou cargos e honrarias com a condição de se calar. Durou pouco o contrato do silêncio, ah!, todo o ouro do mundo não valia a sua liberdade. Jogou longe os aparatos, tirou a viola do saco e voltou às suas sátiras contra a corrupção política, contra o pedantismo e contra a hipocrisia de um reino que nunca respeitou. Orfeu amansava as feras ao som da sua lira. Com sua viola, o poeta atiçava essas feras. Arriscava-se? E muito. Mas viver perigosamente era a sua destinação.
E o poeta sem princípios tinha princípios. Os seus princípios. Se amor é transgressão, ele transgrediu à beça em todos os estados civis pelos quais passou, principalmente no estado de casado, ele gostava de se casar. Contudo, num tempo em que os homens de bem escondiam ferozmente seus amores proibidos e os frutos abomináveis desses amores, assumiu o chamado “caso escabroso”. Lá está, nos assentos da freguesia de São João da Pedreira, a confissão da paternidade: “Aos dezoito de julho de mil seiscentos e setenta e quatro batizei a Francisca, filha de Gregório de Mattos e Guerra, casado, e de Lourença Francisca, solteira.”
Sem querer exagerar na relação das coincidências (o ficcionista é um exagerado), gostaria de lembrar mais um elo de coincidência e que implica uma razão como chave da corrente: eu era estudante na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (“paulista sou, há quatrocentos anos”) quando um colega me ofereceu um livro: Poesias de Gregório de Mattos. Sentei-me sob as arcadas. Abri o livro. Então o bedel veio me perguntar se à noite eu não viria assistir à conferência do Professor Pedro Calmon.
Os jovens desconfiam sempre das celebridades de outra geração, mas eu estava em disponibilidade e esse era um programa. Confesso que entrei na sala meio hesitante, levando comigo as poesias da manhã, uma garantia na hipótese de me sentar na frente e não poder fugir. O tema da conferência era Castro Alves. Entrei desconfiada e saí fascinada. O público ainda aplaudia de pé quando pensei em felicitar o orador de sorriso franco e olhos largos, brilhantes. Não fui, havia gente demais em redor dele. Mas enviei-lhe o meu primeiro livro de contos com uma dedicatória emocionada. Dias depois, recebi o seu cartão que me deixou radiante, mostrei-o aos colegas. Só mais tarde fiquei conhecendo alguns títulos da sua vastíssima obra tão severa, tão brilhante. Destaco as biografias de Castro Alves e de Dom Pedro II. E esse admirável ensaio, Idéias políticas do Brasil. Alguns livros eu amo. Outros, apenas admiro. Eis um livro que amei e admirei.
Araripe Júnior, crítico literário e ensaísta, foi o criador desta cadeira de veludo azul. “O veludo da cadeira azulou como azularam os cabelos” - ouço Gregório de Mattos soprar com seu risinho irreverente.
Ralho com ele e retorno à figura do ensaísta com sua vontade de renovação – mas não é estranho? Araripe Júnior, de aparência tão convencional (as aparências!) e não se sujeitando ao convencional gosto literário da época: ele ousava. Buscava a aventura de novas linguagens e, nessa busca, voltou-se como um girassol deslumbrado para autores como Ibsen, Edgar Poe e... Gregório de Mattos.
Félix Pacheco vem em seguida. Como o seu antecessor, tem o ar ajuizado da laboriosa formiga da fábula, mas gostava mesmo era de ouvir as cigarras. Foi poeta na primeira juventude. O pai queria que ele seguisse a carreira militar; rebelou-se e foi ser jornalista no Jornal do Commercio, onde começou como simples repórter policial e chegou a diretor. Foi também deputado e chanceler da República. Fala tanto nas antigas ilusões, nos sonhos, acredita mesmo que o homem pode se salvar através do sonho - ainda a inquietação do poeta de colete rigorosamente abotoado. Com a emoção arrebentando os botões em suas bizarras paixões literárias: tinha para escolher toda a bem-comportada galeria dos poetas parnasianos, mas quem ele foi buscar? Baudelaire, Rimbaud e Cruz e Sousa, o negro simbolista dos escarros e vísceras. E Gregório de Mattos, naturalmente, o bem-amado dos ocupantes desta Cadeira. Félix Pacheco era feliz? Não sei. Sei que teve a coragem de assumir, já na maturidade, a sua condição de poeta, ele que passara a vida aspirando o buquê perverso das ambigüidades do mal e das ambigüidades do bem. Amava os gatos.
Imaginai agora uma reunião na linha dos malditos, dos raros. Daqueles que, pelos caminhos mais inesperados, escolhem a ruptura. Fora do tempo e ocupando o mesmo espaço, estão todos numa sala, é noite. Os gênios ignorados num País de memória curta, que parece preferir os mitos estrangeiros como se estivéssemos ainda no século XVII, sob o cativeiro do reino. Os mitos estrangeiros que continuam nos vampirizando, já estamos quase esvaídos e ainda oferecemos a jugular no nosso melhor inglês, “o vosso amor é uma honra para mim!”. Pois, imaginai essa reunião com gente aqui da terra: abraçado à sua viola, num canto de sombra está Gregório de Mattos, ouvindo embevecido o piano de Villa-Lobos. Ao lado, um homem pequeno (o Aleijadinho?) diz qualquer coisa que faz Guimarães Rosa rir seu riso luminoso. Tarsila desenha em silêncio, observada por Oswald de Andrade, que gesticula e fala, enquanto Cruz e Sousa se aproxima de Castro Alves, que conversa com Glauber Rocha em tom de conspiração. Vislumbro o perfil de Brecheret. Corre o vinho. Há mais convidados, sim, mas os vultos se esgueiram e se confundem em meio da fumaça penumbrosa dos charutos. Lima Barreto, o moderador da mesa, tira a palheta e começa a falar mas ninguém presta atenção, reina a indisciplina:
É raro encontrar homens assim - diz ele -, mas os há e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça.
Pedro Calmon está atento para registrar e interpretar a contraditória História, matéria para a eternidade. Chama Mário de Andrade e aponta, na vidraça da janela, dois olhos verdes que espiam enviesados. Mário abre a porta e o sorriso. O convite é à maneira bandeiriana: “Entra, Clarice, a casa é sua, você não precisa pedir licença...”
Senhores Acadêmicos, Senhora Acadêmica,
Comecei por narrar as minhas perplexidades naquele modesto laboratório de química da minha adolescência. Das imprevistas misturas, com suas explosões, passei para o imprevisível homem, com sua circunstância, e, assim, nesse mundo fantástico e surrealista, juntei num forte nó as pontas extremas do fio da baianidade: Gregório de Mattos e Pedro Calmon. O herói e o anti-herói. “A disparidade dos seres é acidental”, ensinou Aristóteles. “A unidade dos seres, essa é essencial”. Tudo somado, chegamos às tais “misteriosas combinações” tão do agrado de Dom Pedro I, desde que nelas estaria incluído o seu amor pela marquesa.
Senhores Acadêmicos, Senhora Acadêmica,
Antes de a Academia Francesa de Letras, que foi nosso modelo, receber Marquerite Yourcenar, esta Academia Brasileira de Letras teve o beau geste de abrir suas portas para Rachel de Queiroz. Em seguida, para Dinah.
“Não quero um trono - diria também Rachel de Queiroz. - Quero apenas esta Cadeira.”
A mesma paixão que nos une: a paixão da palavra. A mesma luta tecida na solidão e na solidariedade para cumprir o duro ofício nesta sociedade violenta, de pura autodestruição. E neste tempo que está mais para Gregório de Matos do que para Pedro Calmon - ah! quanta matéria para a inspiração do trovador com sua viola demolidora. Um tempo que marca a plenitude da sátira, da charge política: a salvação através do humor. Com esse humor incandescente, ele iria se empenhar de novo na denúncia dos males que desde o século XVII já afligiam o País, centralizados na política com seus demônios crônicos na delirante corrida pelo poder: o demônio da Gula (leia-se voracidade), o demônio da Vaidade e o demônio da Soberba. O burocrático demônio da Preguiça, esse vem se arrastando por último.
O duro ofício de testemunhar um planeta enfermo nesta virada do século. Às vezes, o medo. Quando perseguido, o polvo se fecha nos tentáculos e solta ma tinta negra para que a água em redor fique turva e, assim, camuflado, ele possa então fugir. A negra tinta o medo. Viscosa, morna. Mas o escritor precisa se ver e ver o próximo na transparência da água. Tem de vencer o medo para escrever esse medo. E resgatar a palavra através do amor, a palavra que permanece como a negação da morte.
Às vezes, a esperança. O homem vai sobreviver, e essa certeza me vem quando vejo o mar, um mar que talhou com tanta poluição, embora!, mas resistindo. Contemplo as montanhas e fico maravilhada porque elas ainda estão vivas. Sei que é preciso apostar, e de aposta em aposta cheguei a esta Casa para a harmoniosa convivência com aqueles que apostam na palavra. Sei ainda que estou feliz nesta noite: vejo minha família - meu filho Godoffredo Telles Neto deve estar por aí me filmando, é cineasta. E vejo os meus amigos. Esses amigos que me acompanham e me iluminam.

"Somos imortais porque não temos onde cair mortos"
Lygia Fagundes Telles

AS HORAS NUAS

Capa da edição dinamarquesa de
As horas nuas, 1991

Tenho um nome de gente na minha condição de gato. Mas antes, quando eu era gente? Aquele é o menino da casa das venezianas verdes, alguém me apontou. Vou andando e olhando o carpete branco-azulado, será que ela vomitou? Há cinza de cigarro, peças de roupa, um copo tombado, manchado de vinho mas nenhum sinal de vômito. E o cheiro pairando no ar. Espantoso o laboratório que não descansa, o vinho perfumado acaba de descer e já começa a fermentação, tudo se transforma rapidamente na química humana. Para pior.
Ando na cama revolvida. Do alto dos travesseiros posso ver melhor o seu perfil. Que resiste como nas medalhas. Mas sem os banhos de sol, sem as massagens e duchas a pele se ressentiu, parece mais flácida. Baça. Cresce seu horror pela claridade, pela rua. Tanta violência lá fora!, respondeu à filha. E depois, sair com quem? Os amigos foram se afastando à medida que sua estrela começou a ficar cinzenta. Restou a Lili que chega de repente toda enfeitada e quer arrastá-la a um restaurante. A um cinema. Ao teatro, nem pensar, já avisou aos que ainda fazem convites, Nunca mais piso num teatro.
- Mãezinha querida, você disse que ia almoçar comigo e não foi, queixou-se Cordélia.
- Hoje não acordei brilhante. A Diú leu o horóscopo, tem aí uma conjuntura de astros que é um horror.
Cordélia foi apanhar o cinzeiro. Transita descalça pelos dois apartamentos com sua leve bata oriental e com a graça de quem acabou de sair do banho, é mais bonita de cara lavada. usa uns vestidinhos soltos, no estilo de uma túnica romana. Quando aparece assim - as coincidências! - lá das lonjuras me vem a imagem de uma jovem de túnica me olhando na alcova, minha mulher? Esqueça. Mãe e filha juntas. O diálogo breve. As visitas breves.
- Vinte e oito anos, Cordélia?
- Trinta, mãezinha, trinta.
- Aparenta dezoito, querida. Diminuo sempre a minha idade e a dos outros, essa mania de idade, hem?! Tirante o médico, alguém ousou algum dia perguntar à mamãe, Quantos anos, minha senhora? A gente agora dá um espirro e já vem a caneta, o microfone, o gravador. Sua idade? Enfim, os jogos já estão feitos, não importa mais.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

TERTÚLIA

"Onde se costuma apresentar o autor como logomarca, queremos deslocar a atenção para a obra. Onde se costuma mediar, desejamos o contato direto. Se em muitos eventos prossegue-se com o padrão de debates domesticados, incitamos a respostas inacabadas.Onde os autores são convidados a se idolatrarem, nosso convite é que falem acerca da obra de outro autor"
Tiago Novaes




Acho que as fotos falam por si. Foi mágico. Foi lindo. Lygia falando sobre Machado de Assis. Carlinha, Cida, Nice....todas em estado de choque.

No final, Cida presenteia Lygia e Carlinha marca presença divulgando nossa comunidade.

Como sempre, a delicadeza da grande dama, em atender a todos, apesar de muito cansada, nenhuma palavra áspera, somente gentilezas com seus queridos leitores.

Olha a comunidade aí!

Olha a nossa turma de Lygianos!!!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

"Ás vezes penso que todos são cachorros com crachás nos dentes, patas dianteiras furadas por brasas de cigarro para dançar melhor, feito o conto* que Lygia Fagundes Telles mandou. E penso junto, sem relação aparente com o que vou dizendo: sempre que vejo ou leio Lygia, fico estarrecido de beleza."
Caio Fernando Abreu

in "Segunda carta para além dos muros"

Seminário dos Ratos

(capa da edição russa)
"No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.
- Que é que você está fazendo aí? - perguntei.
- Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo?"
*

"Duas vezes apertou minha mão, eu preciso de você, disse. Mas logo em seguida já não precisava mais, e esse medo virava indiferença, quase desprezo, com um certo traço torpe engrossando o lábio. Voltava a ser adolescente quando ria, a melhor da nossa classe, sem mistérios. Sem perigo. Fora belíssima e ainda continuava mas sua beleza corrompida agora era triste até na alegria. Contou-me que se separou do quinto marido e vivia com um pequeno tigre num apartamento de cobertura."

*

"Assim a mentira, folha cadente que podia parecer tão brilhante mas de vida breve. Quando o mentiroso olhava para trás, via no final de tudo uma árvore nua. Seca. Mas o verdadeiro, esse teria uma árvore farfalhante, cheia de passarinhos - e abriu as mãos para imitar o bater de folhas e asas. Fechei as minhas. Fechei a boca em brasa agora que os tocos das unhas (já crescidas) eram tentação e punição maior. Podia dizer-lhe que justamente por me achar assim apagada é que precisava me cobrir de mentira como se veste um manto fulgurante. Dizer-lhe que diante dele, mais do que diante dos outros, tinha de inventar e fantasiar para obrigá-lo a se demorar em mim como se demorava agora na verbena será que não percebia essa coisa tão simples?"

*

"Afrouxo o colarinho. Ser simpático é retribuir-lhe o sorriso de Tóquio, é fácil ser simpático. E difícil, já começa a ficar bastante difícil, a simpatia satura mais depressa: um simpático pintor da moda. Não da primeira linha, mas a burguesia média em ascensão pensa que é da primeira e compra o que eu assinar. Mas enriqueci, não enriqueci? Não era isso o que eu queria, merda! Então, não se queixe, tudo bem, qual é o problema?! Vou seguindo submisso o avental branco, em lugares como este fico de uma submissão absoluta."
(...)
"A Rosa, não era virgem? Um ponto que a impressionou foi esse, o fato de uma moça com mais de vinte anos, independente, com cursos e ainda virgem. Lembrei-lhe que naquele tempo usava as moças pobres se guardarem, as ricas podiam ter seus amiguinhos e se casar sem problemas, mas Rosa Preconceituosa era da pequena burguesia."

*

"Disse que era a princesa do baile, riu quando negou ter ligado outras vezes e convidou-o pra ver um filme nacional muito interessante que estava passando ali mesmo, perto da oficina dele, na São João. O silêncio do outro lado foi tão profundo que o Rôni deu-lhe depressa uma segunda dose, Beba, meu bem, que você está quase desmaiando. Acho que caiu a linha, ela sussurrou, apoiando-se na mesa, meio tonta."

*

"A chuva mansa e o céu de aço. Na mesa do Doutor Werebe, o relógio branco marca três horas, três horas em ponto. Cheguei há pouco e a enfermeira pediu que esperasse. Então, como vão as coisas?, ele vai perguntar enquanto acende o cigarro. Como vai minha irmã?, pergunto eu. O silêncio ajuda a abrir o intrincado caminho aqui dentro por onde vou descendo até o fundo, para ajudá-la preciso eu também descer aos infernos. E no terceiro dia ressuscitar dos mortos, rezo muito, mas não aos santos limpos, rezo aos outros, aqueles rasgados por espinhos, por demônios."

*

"Não vai é me fazer um ensopado com seu coração, não vai?
- Meu coração é de i sopor e isopor não dá nenhum ensopado. Li uma vez que - ele acrescentou. Puxou-a com brandura: - Vem, Ana. Ali tem um banco.
- Meu coração é de verdade. Ele riu.
- O seu? Isopor ou acrílico, na história que li o homem achou que tinha tanto sofrimento em redor, mas tanto, que não agüentou e substituiu seu coração por um de acrílico, acho que era acrílico."

(...)
"- Tenho ódio de Amsterdã. Eu era tão perfumada, tão limpa. o Me sujei com você.
- Nos sujamos quando acabou o amor. Agora, vem, vamos
dormir naquele banco. Vem, Ana. Ela puxou-lhe a barba.
- Quando foi que fiquei assim imunda, fala!
- Mas eu já disse, foi quando deixou de me amar.
- Mas você também - ela soqueou-lhe fracamente o peito.
- Nega que você também... - Sim, nós dois. A queda dos anjos, não tem um livro? Ah, que diferença faz. Vem."

*
"Mas era preciso falar? Era mesmo preciso? Ficamos nos olhando e meu pensamento era agora um fluxo que passava das minhas mãos para as suas, estávamos de mãos dadas: sim, eu era ciumenta, insegura, quis me afirmar e tudo foi só decepção, sofrimento. Tinha o Rodrigo (meu Deus, o Rodrigo!) que era omeu querido amor, um amor tumultuado, só imprevisão, só loucura, mas amor. E achei que seria a oportunidade de me livrar dele, a troca era vantajosa, mas calculei mal, logo nos primeiros encontros descobri que a traição faz apodrecer o amor."

*

"Que século, meu Deus! - exclamaram os Ratos e começaram a roer o edifício. "
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A estrutura da bolha de sabão

"Era o que ele estudava. "A estrutura, quer dizer, a estrutura", ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. "A estrutura da bolha de sabão, compreende?" Não compreendia. Não tinha importância. (...)
No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem Sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura.
(...)
Fomos colegas? Não, nos conhecemos numa praia, onde? Por aí, numa praia. Ah. Aos poucos o ciúme foi tomando forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, de tom da pintura dos seus olhos. Escorreu pelas nossas roupas, empapou a toalha da mesa. pingou gota a gota. "
*
"— Precisava ser também na véspera do casamento? Precisava ser na véspera? — repetiu a mulher agarrando-se aos braços da cadeira.
— Precisava.
— Cadela. Já viu sua cara no espelho, já viu?
A moça encostou-se no batente da porta. Abriu a bolsa e tirou o cigarro. Acendeu-o. Quebrou o palito e ficou mascando a ponta.
— Acabou, mãe? Quero dormir.
A mulher aproximou mais a cadeira. Fechou no peito cavado a gola do casaco. Falou em voz baixa, com suavidade.
— Na véspera do casamento. Na vés-pe-ra. Você já viu sua cara no espelho? Já se olhou num espelho''— E daí? O véu vai cobrir minha cara, o véu cobre tudo, ih! tem véu à beça Vou dar uma beleza de noiva, mãe, você vai ver. Preferia me meter no meu colante preto mas seu genro é romântico, aquelas ondas...
(...)
— Por que não se casa com ele? Hein? Vamos. Adriana, por que não se casa com ele?
— Com ele quem?
— Com esse vagabundo que acabou de te deixar no portão.
— Porque ele não quer, ora.
— Ah, porque ele não quer — repetiu a mulher. Parecia triunfante. — Gostei da sua franqueza, porque ele não quer. Ninguém quer, minha querida. Você já teve dúzias de homens e nenhum quis, só mesmo esse inocente do seu noivo...
— Mas ele não é inocente, mãezinha. Ele é preto."
*
Aprendi desde cedo que fazer higiene mental era não fazer nada por aqueles que despencam no abismo. Se despencou, paciência, a gente olha assim com o rabo do olho e segue em frente. Imaginava uma cratera negra dentro da qual os pecadores mergulhavam sem socorro. Contudo, não conseguia visualizar os corpos lá no fundo e isso me apaziguava. E quem sabe um ou outro podia se salvar no último instante, agarrado a uma pedra, a um arbusto?... Bois e homens podiam ser salvos porque o milagre fazia parte da higiene mental. Bastava merecer esse milagre.*

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Verão no aquário


" quando na realidade o amor é uma coisa tão simples... Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida por que tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que a vida onde a vida onde a vida acabou."

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"A verdade me varava da cabeça aos pés, como um raio. E me partira ao meio: na metade viva, sentira um formigamento de formigas vermelhas correndo na alegria carnívora da descoberta. A outra parte estava enegrecida, morta. "

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Revolvi papéis e livros da minha mesa. Abri gavetas. Por onde andariam meus retratos? Era preciso mostrá-los a André, ele precisava me ver menina, nem o inimigo resiste ao retrato da infância. Ele tinha que me conhecer com aquela perplexidade, com aquela inconciência diante do futuro escondido dentro da máquina fotográfica. Vi um retrato assim do meu pai: um menino débil e louro na sua roupa de marinheiro, a mão direita pousada na mesinha com uma toalha de franja e um vaso de flores em cima, a mão esquerda na cintura, os dedos graciosamente imobilizados pelo fotógrafo, "vamos, olhe nesta direção!..." O olhar ainda limpo do rancor pela bem-amada que havia de traí-lo um dia, pela mãe falhando no momento em que não podia falhar, pelo amigo que não era amigo, por Deus que não aparecia para salva-lo quando ele próprio se erguesse para ferir o próximo assim como foi ferido também. Os ídolos ainda estão inteiros. O menino então sorri e nem o inimigo mais feroz resistirá a esse sorriso de quem se oferece tão sem defesa. André poderia se comover com o meu retrato de menina.

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"A busca, a conquista, a posse rápida e total na ânsia de enraizar o amor, que de repente não é mais amor, é lúxuria, lúxuria que de repente não é luxuria, é farsa. Farsa que é medo, simplesmente medo da solidão, mais difícil de suportar que o peso do corpo alheio a se abater sobre o meu..."

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__Você não tocava isso ? perguntou ele fazendo girar o dedo dentro do copo.Ele falava no passado, tocava. Era como se tudo tivesse mesmo acabado. E não estava ? Pensei em miss Gray inclinada sobre o teclado, sem poder desviar o olhar das minhas mãos que tocavam com uma precisão que estarrecia. Era para mim um mistério ve-las assim tão poderosas, livres como se tivessem sido decepadas. "Admiravel, Raiza, admirável!" exclamava miss Gray com a voz trêmula. E eu tremia também e proceguia tocando, tocando e sentindo no rosto as lágrimas correrem misturadas ao suor. deslumbrava-me o fato de não poder controlar meus dedos que se moviam como por efeito de um sortilégio. O orgulho me atordoou, embora no fundo do coração não visse mérito algum em tocar com aquelas mãos que não me pertenciam. Quando foi que ficaram sendo minhas? Não sei. Sei que um dia, derrepente as encontrei sem talento. Abri o piano, mil vezes abri o piano na esperança de repetir o milagre. E não aconteceu mais nada. Agora elas apenas executavam ordens, prisioneiras, mais medrosas do que ratos se debatendo na armadilha dos pulsos. Miss Gray não se conformava com a transformação, "mas não é possível, que é que essa menina tem?!" E procurou ser paciente, à espera de que a crise passasse. Depois exasperou-se, tão perplexa quanto os outros. Só minha mãe não se surpreendeu, "passou como passou a adolescência", ouvi-a certa tarde dizer a miss Gray que se confessava derrotada. Contudo, não se opôs a que eu contratasse Goldenberg, "é um excelente professor", disse apenas. E esperou, era horrível sabe-la esperando que Goldenberg se fosse também.
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"Tombei de joelhos em meio de um desfalecimento. Onde estaria a saída?! Alguém levantou-me por detrás. As mãos eram delicadas, tão delicadas que estremeci. Voltei-me. Um homem com cabeça de urso estendia-me os braços, 'fica comigo!' A voz era triste como os olhos lá no fundo dos buracos de papelão envernizado. O focinho ria numa alegria alvar mas esse era um riso desmentido pelos olhos que imploravam, 'fica comigo!...' Recuei. A enorme cabeça oscilava como a de um animal decapitado. Lembrei-me da história da fera de olhos pungentes, bastava beijá-la e ela se transformaria num príncipe. Sim, seria fácil amá-lo com aqueles seus olhos humanos. Mas quem daria o beijo em mim, quem?"
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"Abri a mão em cima da gravura que eu pregara com tachas na parede. Havia uma rosa de Van Gogh que tinha a mesma cor da minha mão. Rosas num pote verde. Tão inocentes, não? Contudo, bastava um olhar mais demoradamente pata surgir a primeira dúvida: eram rosas vermelhas? Brancas? Amarelas? Todas as cores se empastavam nas pétalas intumescidas e que desabrochavam em labirintos escalavrados pelo pincel na ânsia de encontrar uma saída. Em vão ele abrira talhos profundos na massa espessa das corolas, rodando pelos caminhos como um viajante perdido na mata. Havia esperança? A resposta vinha do sangue que as pétalas gretadas iam vertendo: enquanto houver desespero, diziam elas, haverá luta. E na luta está a salvação."

Abaixo o preconceito!


Palavras sábias de Lygia:

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"Outro dia, numa entrevista, perguntaram-me o que eu penso a respeito do amor homossexual. A vida é tão breve, a felicidade tão rara, meu Deus, deixem as pessoas fazer o que quiserem com seus corpos! Só não gosto e não aceito vulgarização. O sexo é grave, nobre, belo, então a vulgarização me dói. Mas, afora o vulgar, a liberdade no amor deve ser absoluta. Com tanta violência, por que vamos perseguir justamente o amor? Já basta a miséria que nos tira quase tudo."(Gazeta Mercantil, 16/04/2000)

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''Olha aí a crueldade máxima, a mãe se preocupando se o filho ou a filha é homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcetera mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro. Lorena chama de zona sul. A norte já é tão atinginda, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou o religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostariamos que ele fosse.''

(As meninas - Lia falando com a mãezinha,pag 240)

Ciranda de Pedra


“Ouça, querida – disse-lhe Otávia certa vez – não fique assim com essa mentalidade de donzela folhetinesca, não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa ... E que interessa o castigo ou o prêmio? ... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte.”
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"-Coitadinha...-lamentou Otávia enchendo novamente a colher. Delicadamente introduziu-a na boca da criança.- Vocês já imaginaram a maravilha que seria o mundo se ao menos uma quinta parte desses gênios se realizassem na maioridade? Há milênios que os pais se debruçam como fadas sobre os berços e fazem profecias fabulosas. E há milênios a Terra prossegue corroída pelo germe humano, que é sempre tão vulgar e medíocre quanto o da geração anterior. Está claro que a gente concorda sempre com os prognósticos sobre os infantes - acrescentou passando o guardanapo no queixo da menina. Deu uma risadinha. - Mas é por gentileza, não é, nenê?"
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"E então, já descobriu muita coisa? – Seu tom de voz agora era sombrio, com um timbre de desafio. – Por exemplo, que é que você sabe de nós? Que Letícia gosta de mulher?Que Bruna tem um amante? Que Afonso é um pobre-diabo? Que Conrado é virgem?Que eu... Há mais coisas ainda, querida. Mas não, não fique agora pensando quesomos uns monstros, não vá querer descobrir crimes, não há cadáveres dentro denenhuma arca. Apenas há mais coisas ainda. E não adianta ficar aí escarafunchando,que essas você nunca descobrirá. Coisas..."
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"O mal maior foi não estar nunca presente, não ver de perto as coisas que assim de longe se fantasiavam como num sortilégio. Teria visto tudo com simplicidade, sem sofrimento. Mas mil vezes se desdobrara em duas para deixar que uma das menininhas corresse por ali enquanto a outra roía as unhas, rondando na ponta dos pés o quarto da doente. E aquela que fugia, voltava depois contando coisas extraordinárias... (...) Os semideuses eram apenas cinco criaturas dolorosamente humanas. "

Conspirações de Uma grande Dama


Num dia difícil, em plena ditadura militar, Lygia Fagundes Telles viu um monte de nuvens negras no céu de Brasília. “Aquilo é uma conspiração de nuvens”, disse a escritora. A foto do dia da conspiração, em 1976, você vê aqui, com os rabiscos de Lygia no verso, contando a história do que aconteceu. A frase tão boa ela guardou na memória e agora batiza seu novo livro, recém-lançado pela editora Rocco. Conspiração de Nuvens é muito mais que uma obra sob sua assinatura: é o reencontro de Lygia com a vida depois de um longo período de “deficiência espiritual” em função da perda de seu filho único, Goffredo Telles Neto. “Foi muito bom escrever esse livro, entrei em uma vereda de trabalho”, diz a Grande Dama da literatura brasileira. Lygia vive dias atribulados, repletos de eventos e palestras. Mesmo assim, recebeu com muita disposição a reportagem da Revista da Cultura em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, com a peculiar simpatia e um tanto de timidez inicial, logo superada. Na sala de estar, cortinas fechadas e, sobre a escrivaninha, sua Olivetti italiana, na qual “edita” seus textos, além de diversos álbuns de fotos. Difícil apresentar em poucas linhas sua invejável jornada pessoal e profissional. Ganhou os mais importantes prêmios nacionais — e alguns estrangeiros também —, teve obras publicadas em diversos países e preserva sua conhecida elegância, o humor inteligente e o discurso fluente, sempre repleto de imagens poéticas. Características que marcaram sua imagem pública desde os anos 1950, quando escreveu Ciranda de Pedra. Daí por diante, ela produziu outros três romances, escreveu o roteiro do filme Capitu e publicou oito livros de contos e diversas coletâneas e antologias. Em1985 foi eleita imortal da Academia Brasileira de Letras. “Tenho esperança de que, através da minha palavra oral, escrita, e por minha presença, eu tenha ajudado alguém a se afastar do crime, do vício, da loucura, da solidão”, diz Lygia.


De onde surgiu o título Conspiração de Nuvens?

Ele dá nome a uma das histórias publicadas neste livro, quando descrevo a tentativa de entrega do que ficou conhecido como o Manifesto dos Mil. O ano era 1976, ditadura militar, presidente Ernesto Geisel. Eu estava com meu segundo marido, Paulo Emílio Salles Gomes, na fazenda de Décio Almeida Prado, e recebi um telefonema do Rubem Fonseca. “Tudo está sendo censurado, Lygia, está um horror. Elaboramos um manifesto contra a censura e já temos a assinatura de mil intelectuais. Você precisa fazer parte do grupo que vai levá-lo para o ministro da Justiça, o Armando Falcão”. Fomos eu, a escritora Nélida Piñon, o historiador Hélio Silva e o jornalista Jefferson Ribeiro de Andrade. Tomamos um avião a partir do Rio de Janeiro. E lá estávamos quando, de repente, surgiu um monte de nuvens negras à frente. Sussurrei para o Hélio Silva: “Aquilo é uma conspiração de nuvens”. E ele: “Sim, nuvens também conspiram. E se não cairmos agora, vamos ser presos em Brasília”. O tempo se abriu, mas a expressão ficou na minha cabeça.

Vocês entregaram o manifesto?
Não (risos). Armando Falcão não nos recebeu. Mas a imprensa sim, foi uma beleza. Naquela época, tinham tirado das livrarias o Feliz Ano Novo, do Rubem Fonseca, alegando que incentivava a violência, o Ara­celi, Meu Amor, do José Louzeiro, que, diziam, estimulava a sem-vergonhice, e outros. Um jornalista veio conversar comigo, quis saber se haviam recolhido o meu romance As Meninas, no qual incluí o texto de um jovem descrevendo a tortura que sofreu nas mãos do DOI-CODI. Contei que não: segundo disseram a Paulo Emílio, esta parte está na página cento e pouco do livro. O censor chegou até a 74, achou tudo muito chato e não foi adiante (risos).

Você diria que As Meninas é seu livro predileto?
Dentro do romance, sim, porque é um livro bastante real, no qual pego forte na realidade brasileira. Lá está uma drogada, e o Brasil já estava no meio das drogas, uma baiana subversiva e uma jovem burguesinha que milagrosamente se torna tão forte. Fiquei feliz porque, à minha maneira, consegui trazer para o romance o meu país, este Brasil de terceiro mundo, de analfabetos e de miseráveis. Mas também gosto do Ciranda de Pedra, publicado em 1954, que marcou, na minha opinião e na dos críticos também, a minha maturidade intelectual. Gosto também do As Horas Nuas, que tem uma personagem muito forte e muito louca, a Rosana. E, de um modo mais envolvido e difícil, gosto do Verão no Aquário, um livro em que os peixes menores são engolidos pelos maiores, como na vida.

E os livros de contos?
Entre os de contos, prefiro A Noite Escura e Mais Eu. Meu filho, Goffredo, adorava o Disciplina do Amor, um livro de fragmentos. Já o Conspiração de Nuvens, que traz textos baseados em histórias reais, foi especialmente importante para mim. Depois que meu filho morreu, há pouco mais de um ano, fiquei moída como a cana passada pelo triturador.

Como lidou com essa perda?
Fiquei assim, um bagaço, quase morri junto. Ele era muito jovem, homem lindo, inteligentíssimo. Tinha hérnia de disco, uma doença horrível, e havia duas doutrinas: uma que dizia para operar, outra que dizia para não operar. Ele seguiu a primeira, fez duas operações sem sucesso, na terceira morreu do coração. Foi muito bom escrever o Conspiração, pois entrei em uma vereda de trabalho. E pude encontrar novamente, por meio do meu ofício, a minha vida, que estava completamente destruída. É mesmo verdade que a arte é a negação da morte. Através da arte você consegue não negar a morte propriamente, mas consegue, como um cavaleiro, pular o obstáculo – este, enorme – e continuar. Existe a deficiência física, mas, de certo modo, espiritualmente também há uma deficiência em relação à morte. Eu tinha mãos, pernas e cabeça funcionando, mas sofria de uma deficiência espiritual profunda. Tenho vários sangues no caldeirão da minha raça – italiano, espanhol, português. Talvez essa mistura tenha me empurrado para a frente. Uma dor forte como eu tive é uma deficiência.

Há algum leitor privilegiado que lê suas obras antes de serem enviadas ao editor?
Não. Vou escrevendo e enviando para a editora, meus textos nunca sofreram nenhuma interferência. Sou totalmente livre.
Seu pai era advogado, sua mãe era pianista e dona de casa. De onde surgiu sua veia literária? Meu nome de solteira é Lygia de Azevedo Fagundes. Segundo um primo meu, o Menezes, em nossa árvore genealógica estão os escritores Fagundes Varella e Álvares de Azevedo. Pode ter vindo daí. Sei que me apaixonei pelo ofício e aqui estou, curtindo até hoje. Mas sobrevive-se muito mal da literatura. Os editores estão muito ricos, os livreiros eu não sei, os escritores não. Aqui, com raras exceções, os autores não sobrevivem da produção literária. E, na minha juventude, ainda tive que enfrentar o preconceito de sexo – fui uma das primeiras mulheres a se formar em Direito.

Como era ser mulher nesse ambiente?
Na minha sala, eram 200 rapazes para seis moças. Lá me perguntaram: você está aqui para casar? E eu respondi: também! (risos) Éramos todas virgens, não havia esta coisa, era tudo muito recatado, meninas saindo das fraldas. Perguntaram certa vez por que a literatura é tão pobre em mulheres. Ora, porque elas só aprendiam a escrever quando moças! Naquela época, a mulher no Brasil tocava cravo, depois piano, todas donzelas. O futuro único era casamento. Para mim, o que fez com que as mulheres entrassem no mercado de trabalho foi a Segunda Guerra Mundial, quando os homens foram para o front e elas começaram a entrar nas fábricas, nos escritórios e nas universidades, ocupando o lugar dos homens. Mulher só fazia goiabada. Minha mãe só fazia goiabada – mas era uma excelente pianista. No tempo da mamãe, eram chamadas de mulheres-goiabada.

E as mulheres nos dias de hoje?
Está havendo no Brasil uma coisa que me desgosta muito: uma superficialidade incrível, com raras exceções. A mulher está tola, ligada a bobagens, coisas de vitrines e lantejoulas, muito trabalhada na vulgaridade. É mostrar o peito, o traseiro. Agora está na moda ficar de barriga de fora. Outro dia, vi uma mulher da minha idade com um decote até o rabo e uma tatuagem nas costas. Tive vontade de dizer: “Senhora, cubra suas costas, que são muito feias. E sua tatuagem é muito feia também” (risos). Mas não estou na igreja-geral-de-não-sei-o-quê, não saio por aí dizendo coisas. Primeiro, era moda ser modelo. As meninas de 12 anos, todas anoréxicas, para poder desfilar. Agora, é moda ser prostituta. Mas vai passar, vai passar (risos).

Você aderiu ao computador?
Bom, neste último livro tive ajuda para passar tudo para o conspirador... opa, computador (risos). Não gosto, mas vou aprender. Gosto mesmo é da minha Olivetti. Na verdade, primeiro escrevo à mão, passo a limpo na Olivetti e já vou cortando, acrescentando. Depois alguém coloca no computador. Meu filho fez um documentário comigo, o Narrarte, ele era um ótimo cineasta. Lá se vê que eu usava muito durex, ia recortando e colando os trechos. Adoro isso.

O que surge primeiro na sua produção: o personagem, o enredo...?
Não tem ordem, não há estatística. Às vezes, o personagem aparece antes, ou o enredo, ou a idéia. Há uma coisa curiosa: às vezes eu volto ao mesmo personagem. Como se ele me pegasse pela manga e dissesse: olha, não fui bem aproveitado.

O que você acha da expansão das grandes livrarias?
Importantíssima – quanto mais livrarias melhor. A nova livraria da Cultura é uma coisa extraordinária. Na minha infância, havia uma barraca nos parques de diversão chamada “pesca maravilhosa”. A pessoa lançava o anzol e nós, atrás de uma tela, amarrávamos um presentinho nele: um biscoito, caixinha de fósforos... Pedro Herz está fazendo isso: vem o comprador, joga a isca, vem o livro. Uma forma de alimentar um povo que está precisando muito de leitura, as crianças, os jovens. Eles podem ir às baladas, porém têm que ir à leitura também. Buscar na palavra escrita o caminho, a ajuda na profissão, na escolha do ofício, na vocação e na vida. Na Cultura há coisas sedutoras: um café, um restaurante... Aquele que está na rua vê, entra e, de repente, compra um livro. É a pesca maravilhosa da minha infância.

Você tem seus autores preferidos?
Na minha juventude, li muito Dostoievsky e Kafka, e também os franceses, Flaubert, Balzac, Baudelaire, Rimbaud. O fato de ter entrado na Academia Brasileira de Letras facilitou minha vida, pois recebo muitos livros. Aliás, a ABL está muito bem organizada, pois o presidente Marcos Vilaça é muito bom. Está abrindo as portas, tornando-a mais acessível, o que é preciso em um país como o nosso.

Para finalizar, Cultura é...

O pão nosso de cada dia. É nosso alimento, para podermos viver em um país com esperança na nossa língua, tão bela, com estilo, com modo, forma brasileira. É a água da qual bebemos.