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sábado, 21 de novembro de 2009

Futucando a Memória

"Escrever é futucar a memória", diz a autora de "As Meninas" para explicar suas reticências ao falar. Principalmente quando a conversa se aproxima de revelações mais dolorosas sobre a vida e os despenhadeiros da alma, que ela como poucos retrata em seus livros. Mário dá um empurrãozinho discreto e respeitoso. O suficiente para Lygia seguir "futucando as lembranças".

Ela fala da morte prematura do primeiro marido e destacado jurista Gofredo Telles, e mais prematura e dolorosa ainda morte do filho, Gofredo da Silva Telles Neto, o brilhante e promissor documentarista paulista. O jovem com profundas ligações com a Bahia, que amava Salvador com a devoção dos iniciados no axé, nos terreiros de candomblé, da gente que vive no casario do bairro de Santo Antonio, do Além do Carmo e do Pelourinho. Espaços que o filho resgatou "em um dos mais bonitos e comoventes filmes que realizou antes de partir", recorda a mãe comovida.

A escritora lembra também do segundo marido, o saudoso Paulo Emílio Salles Gomes, professor da USP, estudioso e mestre insuperável das coisas ligadas à história e à cultura do cinema brasileiro. Pioneiro das Jornadas de Cinema da Bahia nos anos 60/70, evento hoje internacional, criado e mantido sempre por Guido Araújo.

Perdas e danos que fizeram a autora de "Ciranda de Pedras" e "Antes do Baile" ficar "sozinha, reclusa, solitária". Lygia conta que foi salva das profundezas da depressão pelos livros e personagens de sua obra com os quais segue convivendo, "inclusive o gato", um de seus personagens recorrentes. Salva também, confessa, pela entrada na ABL, onde se sente à vontade na hora do chá e das conversas com os seus iguais.

Ligia confessa no ar, ao final da conversa com Mário, que só fica preocupada quando eventualmente dá um espirro na Academia e sempre aparece alguém cheio de expectativas com a pergunta:

"É pneumonia?"

Se fumasse, teria enfrentado a turma politicamente correta e pedido um legítimo charuto cubano para completar o prazer do domingo em casa. O que se pode pedir mais depois de saborear uma entrevista tão densa e tão rica, mesmo em reprise, com Lygia Fagundes Telles?

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta ( http://bahiaempauta.com.br/).

Nice

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

'Capitu era uma santa; virou monstro. Hoje, não sei'


Eu estava na faculdade de Direito quando li pela primeira vez Dom Casmurro, uma edição que comprei em um sebo. Achei, então, que Capitu era uma santa, uma pobrezinha; e ele, Bentinho, um neurótico, um doido varrido, histérico. Conversei com as minhas colegas, éramos seis mulheres, sobre a leitura, e eu dizia: 'Não pode isso, esse homem é um louco, neurastênico, desesperado, casado com uma santa em que via a traição.' Enfim, não li mais o livro. A segunda leitura foi na maturidade. Estava casada com o Paulo Emílio Sales Gomes e preparávamos Capitu (roteiro filmado por Paulo César Saraceni). Reli o livro e disse ao Paulo: 'Mudei completamente de idéia, a mulher traiu ele sim, o filho não era dele.' E ele me perguntou: 'Você tem certeza? Cuco, você não pode ser juiz, temos que suspender o juízo, como o próprio Machado queria.' E eu: 'Mas eu não posso suspender, esse homem é um doido, coitada dessa mulher.' 'Cuco, não vista a toga de juiz. Vamos apresentar o roteiro como está no livro. Você está ficando com a cara do Bentinho!' 'E você então está me traindo' (risos).
E hoje: Capitu traiu Bentinho?
Eu já não sei mais (risos). Minha última versão é essa, não sei. Acho que enfim suspendi o juízo. No começo, ela era uma santa; na segunda, um monstro. Agora, na velhice, eu não sei. Só tem uma coisa que eu ressalto. Estava conversando com minha neta outro dia. Bentinho fica sabendo que o filho, aquela criança linda, que tanto o amava, é filho de Escobar, que era uma beleza de homem. Vamos aceitar a opinião de Bentinho, o filho então não é dele. Mas ele fica sabendo que o filho morreu e escreve: 'Jantei bem e fui ao teatro.' Não gostei disso, achei duro demais. Mesmo que o filho não fosse dele, ele não podia 'jantar bem'. Eu disse ao Paulo Emílio: ele não podia ter ido comer bife e batatas logo depois de saber da morte do menino. É muita frieza. E o Paulo: 'Não é frieza. Ele via o Escobar no filho, não podia ter ficado triste.' Nós dois quase brigamos (risos). O Paulo entrava na escrita machadiana para preservar a dúvida, o oculto, o encoberto. Machado adorava isso, nada aparecia claramente. Dizia o Paulo: 'Se para o Bentinho o filho não era dele, podia até sair para dançar aquela noite.' E eu reclamava: 'Isso é horrível, Paulo, precisa entrar na sua cabeça que se ele desejava tanto o filho, amava tanto a Capitu, não podia ir ao teatro e jantar bem.'
Você tem uma cena preferida?
Para mim, a cena principal é o momento em que Escobar está morto no caixão, a viúva se aproxima e olha firmemente para o morto; Capitu faz o mesmo - e as duas têm o mesmo olhar. Bentinho estremece inteiro. Olha para as duas e reconhece nelas a mesma expressão. Essa é a cena de um artista maduro. Disse em uma entrevista certa vez que achava Dom Casmurro mais importante que Madame Bovary. Nele há a dúvida, enquanto a Bovary tem escrito na testa que é adúltera. O Wilson Martins me passou um pito em um artigo (risos).
Mas eu continuo achando. Mas pode ser que Bentinho estivesse enganado, doido, neurótico, olhou para as duas e viu a traição da mulher que perdia o amante onde poderia ter visto uma amiga sentindo a perda de uma pessoa querida.Lembro de um episódio interessante. Não me recordo em que ano foi, mas eu já estava casada com o Paulo. Fizeram uma enquete perguntando a homens e mulheres se Capitu tinha ou não traído Bentinho. Você sabe que as mulheres acharam que ela era amante e os homens ficaram na dúvida? Contei para o Paulo, que disse: 'Mulher não gosta mesmo de mulher, quem gosta de mulher é homem.'
Quantas vezes você leu o livro?
Ah, várias. E agora que você me provocou com esse depoimento fui olhar de novo. Peguei também o roteiro de Capitu e um livro importantíssimo, Antologia Filosófica de Machado de Assis, do Miguel Reale. O Machado conhecia os filósofos todos, Sócrates, Platão, Aristóteles, Hegel, Goethe, lia tudo. O Reale insiste na paixão de Machado pelo Eclesiastes. Você me obrigou a relembrar. Foi bom você me provocar, entrei de novo na aura machadiana. De repente escrevo um livro sobre ele.

Publicada no O Estado de São Paulo em 27/02/2008

postado por Nice

Clarice Lispector entrevista Lygia

Você sabe o que uma famosa escritora disse para a outra? Se não sabe, leia o que Clarice Lispector perguntou e Lygia Fagundes Telles respondeu. Mas o final dessa conversa poderá ser na Academia.Eu pretendia ir a São Paulo para entrevistar Lygia Fagundes Telles, pois valia a pena a viagem. Mas acontece que ela veio ao Rio para lançar seu novo livro, Seminário dos ratos. Entre parênteses, já comecei a ler e me parece de ótima qualidade. O fato dela vir ao Rio, o que me facilitaria as coisas, combina com Lígia: ela nunca dificulta nada. Conheço a Lygia desde o começo do sempre. Pois não me lembro de ter sido apresentada a ela. Nós nos adoramos. As nossas conversas são francas e as mais variadas. Ora se fala em livros, ora se fala sobre maquilagem e moda, não temos preconceitos. Às vezes se fala em homens.Lygia é um best-seller no melhor sentido da palavra. Seus livros simplesmente são comprados por todo o mundo. O jeito dela escrever é genuíno pois se parece com o seu modo de agir na vida. O estilo e Lygia são muito sensíveis, muito captadores do que está no ar, muito femininos e cheios de delicadeza. Antes de começar a entrevista, quero lembrar que na língua portuguesa, ao contrário de muitas outras línguas, usam-se poetas e poetisas,autor e autora. Poetisa, por exemplo, ridiculariza a mulher-poeta. Com Lygia, há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas do jeitinho como escrevem parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro. Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores. Sabe-se também que recebeu na França (com um conto seu, num concurso a que concorreram muitos escritores da Europa) um prêmio. De modo que falemos dela como ótimo autor. Lygia ainda por cima é bonita.Comecemos pois:
– Como nasce um conto? Um romance? Qual é a raiz de um texto seu?

– São perguntas que ouço com freqüência. Procuro então simplificar essa matéria que nada tem de simples. Lembro que algumas idéias podem nascer de uma simples imagem. Ou de uma frase que se ouve por acaso. A idéia do enredo pode ainda se originar de um sonho. Tentativa vã de explicar o inexplicável, de esclarecer o que não pode ser esclarecido no ato da criação. A gente exagera, inventa uma transparência que não existe porque – no fundo sabemos disso perfeitamente – tudo é sombra. Mistério. O artista é um visionário. Um vidente. Tem passe livre no tempo que ele percorre de alto a baixo em seu trapézio voador que avança e recua no espaço: tanta luta, tanto empenho que não exclui a disciplina. A paciência. A vontade do escritor de se comunicar com o seu próximo, de seduzir esse público que olha e julga. Vontade de ser amado. De permanecer. Nesse jogo ele acaba por arriscar tudo. Vale o risco? Vale se a vocação for cumprida com amor, é preciso se apaixonar pelo ofício, ser feliz nesse ofício. Se em outros aspectos as coisas falham (tantas falham) que ao menos fique a alegria de criar.
– Para mim a arte é uma busca, você concorda?
– Sim, a arte é uma busca e a marca constante dessa busca é a insatisfação. Na hora em que o artista botar a coroa de louros na cabeça e disser, estou satisfeito, nessa hora mesmo ele morreu como artista. Ou já estava morto antes. É preciso pesquisar, se aventurar por novos caminhos, desconfiar da facilidade com que as palavras se oferecem. Aos jovens que desprezam o estilo, que não trabalham em cima do texto porque acham que logo no primeiro rascunho já está ótimo, tudo bem – a esses recomendo a lição maior que está inteira resumida nestes versos de Carlos Drummond de Andrade:
Chega mais perto e contempla as palavras.Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres:Trouxeste a chave?– Você, Clarice, que é dona de um dos mais belos estilos da nossa língua, você sabe perfeitamente que apoderar-se dessa chave não é assim simples. Nem fácil, há tantas chaves falsas. E essa é uma fechadura toda cheia de segredos. De ambigüidades.
– Fale-nos do Seminário dos ratos.
– Procurei uma renovação de linguagem em cada conto desse meu livro, quis dar um tratamento adequado a cada idéia: um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e em seguida esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática. O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível. O escritor – ai de nós – quer ser lembrado através do seu texto. E a memória do leitor é tão fraca. Leitor brasileiro, então, tem uma memória fragilíssima, tão inconstante. O padre Luís (um padre santo que fez a minha primeira comunhão, foi ele quem me apresentou a Deus) me contou que um dia conduziu uma procissão no Rio. A procissão saía de uma igreja do Posto Um, dava uma volta por Copacabana e retornava em seguida. Muita gente, todo mundo cantando, velas acesas. Mas à medida que a procissão ia avançando, os fiéis iam ficando pelas esquinas, tantos botequins, tantos cafés. E o mar? Quando finalmente voltou à igreja, ele olhou para trás e viu que restara uma meia dúzia de velhos. E os que carregavam os andores. “As pessoas são muito volúveis”, concluiu padre Luís. Em outros termos, o mesmo diria Garrincha quando um mês depois de ser carregado nos ombros por uma multidão delirante, com o mesmo fervor e no mesmo estádio foi fragorosamente vaiado. Tão volúveis...
– Isso não é pessimismo?
– Não sou pessimista, o pessimista é um mal-humorado. E graças a Deus conservo o meu humor, sei rir de mim mesma. E (mais discretamente) do meu próximo que se envaidece com essas coisas, do próximo que enche o peito de ar, abre o leque da cauda e vai por aí, duro de vaidade. De certeza, tantas medalhas, tantas pompas e glórias, eu ficarei ! Não fica nada. Ou melhor, pode ser que fique, mas o número dos que não deixaram nem a poeira é tão impressionante que seria inocência demais não desconfiar. Sou paulista, e como o mineiro, o paulista é meio desconfiado. Então, o certo é dizer com Millôr Fernandes: “quero ser amado em Ipanema, agora, agora”. Em Ipanema vou lançar esse Seminário dos ratos. O que já é alguma coisa...
– Como nasceu esse título?
– Houve em São Paulo um seminário contra roedores. Lá acontecem diariamente dezenas de seminários sobre tantos temas, esse era contra os ratos. “Daqui por diante eles estarão sob controle”, anunciou um dos organizadores, e o público caiu na gargalhada, porque nessa hora exata um rato atravessou o palco. Tantos projetos fabulosos, tantas promessas. Discursos e discursos com pequenos intervalos para os coquetéis. Palavras, palavras. E de repente pensei numa inversão de papéis, ou seja, nos ratos expulsando todos e se instalando soberanos no seminário. “Que século, meu Deus”, exclamariam repetindo o poeta. E continuariam a roer o edifício. Assim nasceu esse conto.
– Quais são os temas do livro?
– São quatorze textos que giram em torno de temas que me envolvem desde que comecei a escrever: a solidão, o amor e o desamor. O medo. A loucura. A morte – tudo isso que aí está em redor. E em nós. Quando fico deprimida vejo claramente essas três espécies em extinção: o índio, a árvore e o escritor. Mas reajo, não sei tra- balhar sem a esperança no coração. Sou de Áries, recebo a energia do sol. E de Deus, o que vem a dar no mesmo,tenho paixão por Deus.
– Há muita gente louca no Seminário dos ratos?
– Sim, há um razoável número de loucos nesse meu livro e também nos outros. Mas a loucura não anda mesmo por aí galopante? “Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco representaria uma outra forma de loucura”, disse Pascal.
- O que mais lhe perguntam?
– Eis o que me perguntam sempre: compensa escrever? Economicamente, não. Mas compensa – e tanto – por outro lado através do meu trabalho fiz verdadeiros amigos. E o estímulo do leitor? E daí? “As glórias que vêm tarde já vêm frias”, escreveu o Dirceu de Marília. Me leia enquanto estou quente.

Postado por Nice

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Elzira


Ao jornalista Cassiano Elek Machado (Folha de S. Paulo, 17/4/2004) ela contou o tipo de impulso que, na infância, a levou à literatura. Um dia, conta Machado, a menina Lygia bordava num canto da casa em Sertãozinho (SP) quando sua mãe lhe contou a história de uma bisavó, Elzira. Poetisa, pianista, apaixonou-se por um médico recém-formado, de nome Paixão, que encontrara em uma novena. Negro, foi pedir a mão de Elzira. A família rejeitou. Desiludido, Paixão encontrou-se com Elzira em dia de tempestade antes de abandonar a cidade.


"Ela chegou em casa outra pessoa. Não escreveu mais versos, não tocou mais o cravo, comia e falava pouco. Todas as noites punha no peito uma toa­lha ensopada de água. Ficou tuberculosa. Seis meses depois da partida dele, morreu. Quiseram chamar o doutor Paixão. Mas não havia naquele tempo jornal nem internet. Ele nem soube da morte dela", contou Lygia a Machado.Na cidade castigada pela seca não havia flores nos jardins para a sepultura. É então que uma sineta toca. "Chega um moço lindo, com uma braçada de lírios recém-colhidos para cobrir o caixão de Elzira." Antes que o pai alcançasse o mensageiro para identificá-lo, ele se evapora. "Era um anjo", conclui Lygia, que desde então abraçou o mistério literário, que é outra forma de falar que tudo que é narrativo é parte do mistério do mundo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Loucura


"Outra vez, fui a um psiquiatra, porque me achei mais louca do que o natural, e aí percebi que ele não podia fazer nada por mim; paguei e fui embora. Nós temos essa loucura natural, essa própria loucura que nos é benéfica, porque nós somos, afinal, tocados pela asa do anjo. Eu sou uma espiritualista. Tenho paixão pela língua portuguesa, tenho paixão por Jesus. Sou apaixonada por Jesus. Um dia, começaram a falar mal de Jesus numa sala, eu me levantei furiosa - como se estivessem falando mal de minha santa mãe - e fui embora."

CIRANDA DE PEDRA (2)

(1954)

"Eu ia andando por uma rua muito elegante daqui de São Paulo e vi uma casa sendo demolida. Eu me lembro que a casa tinha um jardim lindo e uma escada de mármore. A casa já estava sem a parede da frente, exposta. Fiquei muito comovida com aquela imagem e pensei comigo: aqui nesta casa gente amou, viveu, dançou e chorou. Aí, percebi uma fonte débil, com água ainda jorrando. Em volta dela, havia pequenos anões de jardim, que estavam de mãos dadas, em uma ciranda que fechava a fonte. Pensei em uma jovem querendo entrar nessa ciranda de pedra e não conseguindo. Foi assim que nasceu a Virgínia."

(...)
"Ciranda de Pedra tem muito a ver com a minha história. Eu tive uma juventude muito tempestuosa. Eu era uma estudante muito pobre, meu pai havia se separado de minha mãe, eu me sentia muito rejeitada. A personagem Virgínia nasceu desse sentimento da rejeição. Esse livro é de 1954, tinha uma lésbica nesse romance, uma coisa que ninguém falava naquela época. O preconceito era terrível. Era a minha vontade de quebrar com os preconceitos, de quebrar com a tradição, das coisas todas arrumadinhas, limpas, sem poeira."
(...)

"Um livro que me ensinou a liberdade de escrever. Não me detive em qualquer limite nas personagens, na temática. É um livro corajoso para a época, tem como protagonistas um impotente, uma lésbica, e todo tipo de relacionamento dificílimo. Não hesitei diante de nenhuma personagem. Foi considerado escandaloso."

sábado, 23 de agosto de 2008

Lygia fala sobre sua vocação de escritora...


O CHAMADO

Nos tempos dourados aprendi duas palvras que acabaram tendo tanta importância no meu ofício, a palavra liberdade e a palavra justiça. Mas foi no terreno dos esportes que conheci realmente a disciplina, segredo do modesto e quilíbrio desta escritora neste indisciplinado país.

(...)

O chamado. Obedecer a esse chamdo é uma destinação e não condenação, porque nesta entra o amargor que transforma o escritor numa esponja de fel. Obedecer à vocação seria simplesmente exercer o ofício da paixão, era o que me ocorria quando diante da pequena mesa abria o estojo com as canetas, escolhia a pena preferida, molhava no tinteiro e começava a escrever minhas histórias. Mas tomando cuidado para não sujar os dedos, esfregar o mata-borrão melhorava, mas cuidado com a blusa!

Quando me perguntava o que eu queria ser respondia, Escritora. Mas não falava em vocação, tinha pudor em assumir o ofício porque poderia parecer arrogância com um toque até de soberba. Só mais tarde compreendi que na vocação não está incluída a glória, tantas vocações verdadeiras e o silêncio, ninguém leu, ninguém viu. Vocação seria então apenas isto, atender ao chamado sem se preocupar com o resultado, cumprir o aprendizado da paciência e do amor.

(...)

Alguns dos meus textos nasceram de uma simples frase ou de uma imagem, algo que escutei ou apenas vi e retive na memória, essa incompreensível faculdade da memória e sem “Sem a qual eu não poderia pronunciar o meu próprio nome”, como escreveu Santo Agostinho. Contos ou romances que nasceram de algum sonho, enfim, a maior parte dos meus trabalhos deve ter origem lá nos emaranhados do incosciente – a zona vaga e imprecisa do mistério. Impossível determinara as fronteiras do criador, os limites do imaginário e do real. Minha obra tem um certo travo de amargor? Anoiteço às vezes como toda gente mas espero pela manhã com seu bíblico grão de acaso, de loucura. E de imprevisto.

Trechos do escrito "O chamado- Conspiração de Nuvens"



sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Autocrítica

Revista Marie Clarie: Foi seu pai [o advogado Durval Fagundes] quem ajudou a publicar o primeiro livro de contos, ''Porão e Sobrado'', quando você ainda cursava o curso ginasial...

Lygia Fagundes Telles: "Eu lia minhas histórias para ele, ouvia suas sugestões. Nós nos dávamos muito bem. Ele realmente me apoiava e me ajudou, pagando a edição desse livro. Infelizmente foi uma estréia prematura: poucos anos depois, o texto não resistiu à minha autocrítica. Nunca mais permiti a republicação desse e de outros textos daquela fase."

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

TERTÚLIA

"Onde se costuma apresentar o autor como logomarca, queremos deslocar a atenção para a obra. Onde se costuma mediar, desejamos o contato direto. Se em muitos eventos prossegue-se com o padrão de debates domesticados, incitamos a respostas inacabadas.Onde os autores são convidados a se idolatrarem, nosso convite é que falem acerca da obra de outro autor"
Tiago Novaes




Acho que as fotos falam por si. Foi mágico. Foi lindo. Lygia falando sobre Machado de Assis. Carlinha, Cida, Nice....todas em estado de choque.

No final, Cida presenteia Lygia e Carlinha marca presença divulgando nossa comunidade.

Como sempre, a delicadeza da grande dama, em atender a todos, apesar de muito cansada, nenhuma palavra áspera, somente gentilezas com seus queridos leitores.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Conspirações de Uma grande Dama


Num dia difícil, em plena ditadura militar, Lygia Fagundes Telles viu um monte de nuvens negras no céu de Brasília. “Aquilo é uma conspiração de nuvens”, disse a escritora. A foto do dia da conspiração, em 1976, você vê aqui, com os rabiscos de Lygia no verso, contando a história do que aconteceu. A frase tão boa ela guardou na memória e agora batiza seu novo livro, recém-lançado pela editora Rocco. Conspiração de Nuvens é muito mais que uma obra sob sua assinatura: é o reencontro de Lygia com a vida depois de um longo período de “deficiência espiritual” em função da perda de seu filho único, Goffredo Telles Neto. “Foi muito bom escrever esse livro, entrei em uma vereda de trabalho”, diz a Grande Dama da literatura brasileira. Lygia vive dias atribulados, repletos de eventos e palestras. Mesmo assim, recebeu com muita disposição a reportagem da Revista da Cultura em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo, com a peculiar simpatia e um tanto de timidez inicial, logo superada. Na sala de estar, cortinas fechadas e, sobre a escrivaninha, sua Olivetti italiana, na qual “edita” seus textos, além de diversos álbuns de fotos. Difícil apresentar em poucas linhas sua invejável jornada pessoal e profissional. Ganhou os mais importantes prêmios nacionais — e alguns estrangeiros também —, teve obras publicadas em diversos países e preserva sua conhecida elegância, o humor inteligente e o discurso fluente, sempre repleto de imagens poéticas. Características que marcaram sua imagem pública desde os anos 1950, quando escreveu Ciranda de Pedra. Daí por diante, ela produziu outros três romances, escreveu o roteiro do filme Capitu e publicou oito livros de contos e diversas coletâneas e antologias. Em1985 foi eleita imortal da Academia Brasileira de Letras. “Tenho esperança de que, através da minha palavra oral, escrita, e por minha presença, eu tenha ajudado alguém a se afastar do crime, do vício, da loucura, da solidão”, diz Lygia.


De onde surgiu o título Conspiração de Nuvens?

Ele dá nome a uma das histórias publicadas neste livro, quando descrevo a tentativa de entrega do que ficou conhecido como o Manifesto dos Mil. O ano era 1976, ditadura militar, presidente Ernesto Geisel. Eu estava com meu segundo marido, Paulo Emílio Salles Gomes, na fazenda de Décio Almeida Prado, e recebi um telefonema do Rubem Fonseca. “Tudo está sendo censurado, Lygia, está um horror. Elaboramos um manifesto contra a censura e já temos a assinatura de mil intelectuais. Você precisa fazer parte do grupo que vai levá-lo para o ministro da Justiça, o Armando Falcão”. Fomos eu, a escritora Nélida Piñon, o historiador Hélio Silva e o jornalista Jefferson Ribeiro de Andrade. Tomamos um avião a partir do Rio de Janeiro. E lá estávamos quando, de repente, surgiu um monte de nuvens negras à frente. Sussurrei para o Hélio Silva: “Aquilo é uma conspiração de nuvens”. E ele: “Sim, nuvens também conspiram. E se não cairmos agora, vamos ser presos em Brasília”. O tempo se abriu, mas a expressão ficou na minha cabeça.

Vocês entregaram o manifesto?
Não (risos). Armando Falcão não nos recebeu. Mas a imprensa sim, foi uma beleza. Naquela época, tinham tirado das livrarias o Feliz Ano Novo, do Rubem Fonseca, alegando que incentivava a violência, o Ara­celi, Meu Amor, do José Louzeiro, que, diziam, estimulava a sem-vergonhice, e outros. Um jornalista veio conversar comigo, quis saber se haviam recolhido o meu romance As Meninas, no qual incluí o texto de um jovem descrevendo a tortura que sofreu nas mãos do DOI-CODI. Contei que não: segundo disseram a Paulo Emílio, esta parte está na página cento e pouco do livro. O censor chegou até a 74, achou tudo muito chato e não foi adiante (risos).

Você diria que As Meninas é seu livro predileto?
Dentro do romance, sim, porque é um livro bastante real, no qual pego forte na realidade brasileira. Lá está uma drogada, e o Brasil já estava no meio das drogas, uma baiana subversiva e uma jovem burguesinha que milagrosamente se torna tão forte. Fiquei feliz porque, à minha maneira, consegui trazer para o romance o meu país, este Brasil de terceiro mundo, de analfabetos e de miseráveis. Mas também gosto do Ciranda de Pedra, publicado em 1954, que marcou, na minha opinião e na dos críticos também, a minha maturidade intelectual. Gosto também do As Horas Nuas, que tem uma personagem muito forte e muito louca, a Rosana. E, de um modo mais envolvido e difícil, gosto do Verão no Aquário, um livro em que os peixes menores são engolidos pelos maiores, como na vida.

E os livros de contos?
Entre os de contos, prefiro A Noite Escura e Mais Eu. Meu filho, Goffredo, adorava o Disciplina do Amor, um livro de fragmentos. Já o Conspiração de Nuvens, que traz textos baseados em histórias reais, foi especialmente importante para mim. Depois que meu filho morreu, há pouco mais de um ano, fiquei moída como a cana passada pelo triturador.

Como lidou com essa perda?
Fiquei assim, um bagaço, quase morri junto. Ele era muito jovem, homem lindo, inteligentíssimo. Tinha hérnia de disco, uma doença horrível, e havia duas doutrinas: uma que dizia para operar, outra que dizia para não operar. Ele seguiu a primeira, fez duas operações sem sucesso, na terceira morreu do coração. Foi muito bom escrever o Conspiração, pois entrei em uma vereda de trabalho. E pude encontrar novamente, por meio do meu ofício, a minha vida, que estava completamente destruída. É mesmo verdade que a arte é a negação da morte. Através da arte você consegue não negar a morte propriamente, mas consegue, como um cavaleiro, pular o obstáculo – este, enorme – e continuar. Existe a deficiência física, mas, de certo modo, espiritualmente também há uma deficiência em relação à morte. Eu tinha mãos, pernas e cabeça funcionando, mas sofria de uma deficiência espiritual profunda. Tenho vários sangues no caldeirão da minha raça – italiano, espanhol, português. Talvez essa mistura tenha me empurrado para a frente. Uma dor forte como eu tive é uma deficiência.

Há algum leitor privilegiado que lê suas obras antes de serem enviadas ao editor?
Não. Vou escrevendo e enviando para a editora, meus textos nunca sofreram nenhuma interferência. Sou totalmente livre.
Seu pai era advogado, sua mãe era pianista e dona de casa. De onde surgiu sua veia literária? Meu nome de solteira é Lygia de Azevedo Fagundes. Segundo um primo meu, o Menezes, em nossa árvore genealógica estão os escritores Fagundes Varella e Álvares de Azevedo. Pode ter vindo daí. Sei que me apaixonei pelo ofício e aqui estou, curtindo até hoje. Mas sobrevive-se muito mal da literatura. Os editores estão muito ricos, os livreiros eu não sei, os escritores não. Aqui, com raras exceções, os autores não sobrevivem da produção literária. E, na minha juventude, ainda tive que enfrentar o preconceito de sexo – fui uma das primeiras mulheres a se formar em Direito.

Como era ser mulher nesse ambiente?
Na minha sala, eram 200 rapazes para seis moças. Lá me perguntaram: você está aqui para casar? E eu respondi: também! (risos) Éramos todas virgens, não havia esta coisa, era tudo muito recatado, meninas saindo das fraldas. Perguntaram certa vez por que a literatura é tão pobre em mulheres. Ora, porque elas só aprendiam a escrever quando moças! Naquela época, a mulher no Brasil tocava cravo, depois piano, todas donzelas. O futuro único era casamento. Para mim, o que fez com que as mulheres entrassem no mercado de trabalho foi a Segunda Guerra Mundial, quando os homens foram para o front e elas começaram a entrar nas fábricas, nos escritórios e nas universidades, ocupando o lugar dos homens. Mulher só fazia goiabada. Minha mãe só fazia goiabada – mas era uma excelente pianista. No tempo da mamãe, eram chamadas de mulheres-goiabada.

E as mulheres nos dias de hoje?
Está havendo no Brasil uma coisa que me desgosta muito: uma superficialidade incrível, com raras exceções. A mulher está tola, ligada a bobagens, coisas de vitrines e lantejoulas, muito trabalhada na vulgaridade. É mostrar o peito, o traseiro. Agora está na moda ficar de barriga de fora. Outro dia, vi uma mulher da minha idade com um decote até o rabo e uma tatuagem nas costas. Tive vontade de dizer: “Senhora, cubra suas costas, que são muito feias. E sua tatuagem é muito feia também” (risos). Mas não estou na igreja-geral-de-não-sei-o-quê, não saio por aí dizendo coisas. Primeiro, era moda ser modelo. As meninas de 12 anos, todas anoréxicas, para poder desfilar. Agora, é moda ser prostituta. Mas vai passar, vai passar (risos).

Você aderiu ao computador?
Bom, neste último livro tive ajuda para passar tudo para o conspirador... opa, computador (risos). Não gosto, mas vou aprender. Gosto mesmo é da minha Olivetti. Na verdade, primeiro escrevo à mão, passo a limpo na Olivetti e já vou cortando, acrescentando. Depois alguém coloca no computador. Meu filho fez um documentário comigo, o Narrarte, ele era um ótimo cineasta. Lá se vê que eu usava muito durex, ia recortando e colando os trechos. Adoro isso.

O que surge primeiro na sua produção: o personagem, o enredo...?
Não tem ordem, não há estatística. Às vezes, o personagem aparece antes, ou o enredo, ou a idéia. Há uma coisa curiosa: às vezes eu volto ao mesmo personagem. Como se ele me pegasse pela manga e dissesse: olha, não fui bem aproveitado.

O que você acha da expansão das grandes livrarias?
Importantíssima – quanto mais livrarias melhor. A nova livraria da Cultura é uma coisa extraordinária. Na minha infância, havia uma barraca nos parques de diversão chamada “pesca maravilhosa”. A pessoa lançava o anzol e nós, atrás de uma tela, amarrávamos um presentinho nele: um biscoito, caixinha de fósforos... Pedro Herz está fazendo isso: vem o comprador, joga a isca, vem o livro. Uma forma de alimentar um povo que está precisando muito de leitura, as crianças, os jovens. Eles podem ir às baladas, porém têm que ir à leitura também. Buscar na palavra escrita o caminho, a ajuda na profissão, na escolha do ofício, na vocação e na vida. Na Cultura há coisas sedutoras: um café, um restaurante... Aquele que está na rua vê, entra e, de repente, compra um livro. É a pesca maravilhosa da minha infância.

Você tem seus autores preferidos?
Na minha juventude, li muito Dostoievsky e Kafka, e também os franceses, Flaubert, Balzac, Baudelaire, Rimbaud. O fato de ter entrado na Academia Brasileira de Letras facilitou minha vida, pois recebo muitos livros. Aliás, a ABL está muito bem organizada, pois o presidente Marcos Vilaça é muito bom. Está abrindo as portas, tornando-a mais acessível, o que é preciso em um país como o nosso.

Para finalizar, Cultura é...

O pão nosso de cada dia. É nosso alimento, para podermos viver em um país com esperança na nossa língua, tão bela, com estilo, com modo, forma brasileira. É a água da qual bebemos.

Vaidade é o porre do consumismo!

“VÃO LER, MULHERES!” ESSE É O APELO DE LYGIA FAGUNDES TELLES POR UM MUNDO MENOS FÚTIL

Entrevista com Lygia Fagundes Telles por Ronaldo Bressane

Ela já tem coragem de saber que é imortal, como cantaria Caetano. Talvez por isso não decline a idade. Uma rara vaidade a que se permite Lygia Fagundes Telles, das mais importantes escritoras brasileiras vivas. Põe viva nisso: a autora de clássicos como Seminário dos Ratos caminha todos os dias, pratica natação desde a adolescência e adora uma boa briga – no sentido intelectual, claro. Talvez daí venha seu segredo de beleza: o importante é “o interior”, diz. Não a interessam as vaidades do mundo, afirma – seu foco são os livros, como a novela que atualmente escreve. Conta que a personagem pediu para ser escrita: “Ela apareceu pela primeira vez em um conto, a personagem WM, uma atriz”, explica. “Veio lá do inferno velho, onde Judas perdeu as botas e as meias, e de repente voltou a bater no meu ombro: ‘Estou aqui, quero voltar’. Como uma velha namorada, um tio que bebe, as personagens voltam também.” Sobre as coisas menos visíveis, Lygia tem pleno domínio. Já quando o assunto é vaidade, que se danem as estribeiras. A imortal não tem medo de soar conservadora em sua defesa da reflexão como contraponto à “futilidade de imagens”. E tece curiosas relações entre vaidade e política. Só para ser chato com ela, vai a indiscrição: segundo o Wikipedia, Lygia viveu belíssimos 82 anos. Assim, você, gatinha que nos acompanha, ouça a voz da experiência – saia já dessa maldita esteira e entre numa livraria.

Você é vaidosa?

Acho que não. Não faria essas operações plásticas, em que o olho acaba indo parar na testa como uma amêndoa. Lá sei, acho que sou anormal! Gosto de me apresentar o melhor possível, mas nunca tomei porre de vaidade. Sem essa coisa desesperada que a mulher vive, só falta pôr um pepino na cabeça. Não tenho essa servidão humana em relação à vaidade. Devia ser corcunda, mas fiz curso de educação física, esgrimava, nadava – nado até hoje. Tenho uma tradição do esporte em mim, procuro ficar bem por meios naturais.

Por que as mulheres gostam de sair peladas nas revistas?

E inclusive mulheres velhas! [risos] É deprimente essa vontade de se exibir. Até mulheres grávidas gostam de mostrar a barriga de nove meses... por que tenho de ver a barriga dela? São coisas íntimas. Eu gosto da privacidade. Uma vez vi aqui perto de casa um casal transando na rua. Passei perto e ainda tive de ouvir: “Nunca viu, tia?”. Respondi: “Assim na esquina é a primeira vez” [risos]. Você não acha que há uma vulgaridade excessiva em nosso tempo?

Mulher é, de fato, mais exibicionista do que homem?

É preciso não pensarmos só nas revistas de débil mental que mostram mulher pelada, peitos, traseiro e tal. Acredito que há uma reação de mulheres escapando dessa servidão ao porre de vaidade. Vejo nas fábricas, nas universidades. Rimbaud uma vez disse: “Já cheguei ao limite da minha linguagem. Agora são as mulheres, quando souberem escrever”. As mulheres desvendam coisas que o homem não atinge, está compreendendo? Estão mais perto de uma cortina que se abre. A mulher consegue entrar no labirinto e sair melhor dele. Acho isso mais interessante do que ficar se exibindo por aí.

Você acha que as mulheres precisam da aprovação de outro – um homem ou outra mulher – para se sentirem belas?

Olha, não pense que sou uma Santa Terezinha do Menino Jesus. Não tenho virtudes, sou frágil. Mas me deixa envergonhada o triunfo da vulgaridade. Não precisa ser vulgar! “Vaidade das vaidades, diz o Pregador no Eclesiastes, tudo é vaidade”. É preciso que a mulher escape dessa absoluta servidão tão humilhante e dolorida. Sim, cuidar do corpo, mas sem chegar ao desfrute nessa ânsia de perfeição para exibi-lo. Todos querem ser Gisele? Somos imperfeitos.

“AS MULHERES DESVENDAM COISAS QUE O HOMEM NÃO ATINGE. A MULHER ENTRA NO LABIRINTO E SAI MELHOR DELE. ISSO É MAIS INTERESSANTE DO QUE SE EXIBIR POR AÍ”

Outro dia li uma notícia dizendo que na China há garotas que quebram as próprias pernas para, quando operarem, ganharem alguns centímetros. O que acha desses modernos sacrifícios?
Bom, não passaria por esse desespero: tenho 1,70 metro, os Fagundes são altos... Mas acho que tudo o que foge à natureza me parece desagradável. É uma agressão ao ser humano. Acho que no Brasil acontece isso. As mulheres agridem sua natureza. Uma amiga minha foi operar o nariz e cortou demais, agora nem sai na rua [risos]. Isso é horrível. As mulheres estão enlouquecidas. Essa servidão em relação a costureiros! Servidão só à arte, se bem que à arte não tenho servidão, mas amor. Umbigos de fora, peitos siliconados transbordando como navios na frente delas [risos]... Sou pela naturalidade.

Qual a relação que você vê entre consumismo e beleza?

Ah, sim, vaidade é o porre do consumismo. Gostei de um recente artigo do Fabio Konder Comparato na Folha, explicando por que os deputados roubam tanto: um quer ter um iate, outro quer uma mansão... O consumismo é uma doença do Terceiro Mundo! Por que não vão às livrarias, as vagabundas, em vez de comprarem casacos de pele? Por que não vão aperfeiçoar o espírito?

Você é uma mulher belíssima . Ser bonita já incomodou?

Não, me sinto bem não sendo um lobisomem [risos], como ocorre com a maioria dos escritores – escritor tem essa fama de enjeitado. Mas nunca me atrelei a isso. O que tenho por dentro é o importante. As mulheres fomentam esse deslumbre em relação à imagem, é triste, é passageiro – porque tem a velhice, a morte... Temos de ir às nossas cavernas, explorá-las enquanto o pensamento está poderoso ainda, e deixar de lado a futilidade. Mulheres morrem nas clínicas de lipoaspiração! Vão ler! Vão estudar! As mulheres são muito mais importantes do que pensam. Perdemos um tempo enorme com essas lojas, essas vitrines. Passo aqui perto de casa, vejo os manequins todos sem cabeça, e percebo que está certo: quem pensa muito em moda não pensa mesmo. Pra que a cabeça?

(Revista TPM edição 50.)