quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A estrutura da bolha de sabão

"Era o que ele estudava. "A estrutura, quer dizer, a estrutura", ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. "A estrutura da bolha de sabão, compreende?" Não compreendia. Não tinha importância. (...)
No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem Sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura.
(...)
Fomos colegas? Não, nos conhecemos numa praia, onde? Por aí, numa praia. Ah. Aos poucos o ciúme foi tomando forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, de tom da pintura dos seus olhos. Escorreu pelas nossas roupas, empapou a toalha da mesa. pingou gota a gota. "
*
"— Precisava ser também na véspera do casamento? Precisava ser na véspera? — repetiu a mulher agarrando-se aos braços da cadeira.
— Precisava.
— Cadela. Já viu sua cara no espelho, já viu?
A moça encostou-se no batente da porta. Abriu a bolsa e tirou o cigarro. Acendeu-o. Quebrou o palito e ficou mascando a ponta.
— Acabou, mãe? Quero dormir.
A mulher aproximou mais a cadeira. Fechou no peito cavado a gola do casaco. Falou em voz baixa, com suavidade.
— Na véspera do casamento. Na vés-pe-ra. Você já viu sua cara no espelho? Já se olhou num espelho''— E daí? O véu vai cobrir minha cara, o véu cobre tudo, ih! tem véu à beça Vou dar uma beleza de noiva, mãe, você vai ver. Preferia me meter no meu colante preto mas seu genro é romântico, aquelas ondas...
(...)
— Por que não se casa com ele? Hein? Vamos. Adriana, por que não se casa com ele?
— Com ele quem?
— Com esse vagabundo que acabou de te deixar no portão.
— Porque ele não quer, ora.
— Ah, porque ele não quer — repetiu a mulher. Parecia triunfante. — Gostei da sua franqueza, porque ele não quer. Ninguém quer, minha querida. Você já teve dúzias de homens e nenhum quis, só mesmo esse inocente do seu noivo...
— Mas ele não é inocente, mãezinha. Ele é preto."
*
Aprendi desde cedo que fazer higiene mental era não fazer nada por aqueles que despencam no abismo. Se despencou, paciência, a gente olha assim com o rabo do olho e segue em frente. Imaginava uma cratera negra dentro da qual os pecadores mergulhavam sem socorro. Contudo, não conseguia visualizar os corpos lá no fundo e isso me apaziguava. E quem sabe um ou outro podia se salvar no último instante, agarrado a uma pedra, a um arbusto?... Bois e homens podiam ser salvos porque o milagre fazia parte da higiene mental. Bastava merecer esse milagre.*

2 comentários:

Aparecida disse...

post
GENIAL.
claro.
limpido.
...

Ítala disse...

Meu conto preferido.
Remete o amor...

"Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cahos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca"

Em Conspiração de Nuvens, Lygia diz a inspiração para se esse conto lindo.